Livros que Não Existem (!?)

Escrito por: | em 11/07/2011 | Adicionar Comentário |

Pela primeira vez na história do Grifo Nosso não farei reviews sobre livros lidos, não falarei sobre autores recomendados e não comentarei sobre um assunto relativo a estes. É hora de tocar em um assunto inusitado, discutirei sobre o que não li!  :-o

A idéia para o post começou quando me deparei recentemente com a seguinte obra: O Livro dos Livros Perdidos, de Stuart Kelly. Nele, o escritor discorre sobre dezenas de obras literárias de grande importância ou não que se perderam ao longo do tempo e que nunca mais leremos. Um livro que aparenta ser desesperador para o leitor assíduo pois o informa que trabalhos de Goethe, Shakespeare, Dostoievski,  Jane Austen e tantos outros autores estão perdidas no limbo. Ésquilo, por exemplo, um dos pais da dramaturgia e solidificador das histórias em trilogia, só tem hoje em dia 7 obras que resistiram ao tempo de um total de mais de 70, todas perdidas no fatídico incêndio da biblioteca de Alexandria, pois o rei egípcio ao pedir as Obras Completas das mãos dos atenienses decidiu não devolver e proibiu qualquer reprodução. Ou seja, o que temos hoje são as partes decoradas de quem ia contemplar o livro.

O assunto me remeteu diretamente a O Nome da Rosa, best seller de Umberto Eco e nada menos que meu livro favorito. Sei que ele merece um post à parte, mas resumidamente pode-se dizer que o autor desfia sua imensa bagagem cultural em um único cenário, um mosteiro beneditino do século XIV que abriga uma das melhores bibliotecas da cristandade e discute-se, dentre outras coisas, sobre um livro perdido de Aristóteles, que imagina-se que se não fosse perdido poderia mudar muito do mundo que conhecemos tendo em vista que esse filósofo alterou completamente a maneira de pensar ocidental.

Ainda nessa conexão lembrei-me de outro documento que sim existe, mas na verdade é uma farsa, o famoso Os Protocolos dos Sábios de Sião. Trata-se de um escrito que teoricamente fala sobre um plano judeu de dominar o mundo por diversas formas. Embora a idéia pareça boba o livro foi criado para desestabilizar o poder judeu na Rússia no início do século e mais tarde foi usado por Hitler para justificar suas ações contra os “ratos”. Ainda hoje é impresso em várias partes do mundo, principalmente no ambiente árabe onde inclusive ganhou uma série televisiva. É comprovadamente uma falsificação mal feita, mas já ganhou notoriedade e a mente de pessoas que não se perguntam se é verdade. A obra definitiva sobre o tema e que recomendo muito é a graphic novel (história em quadrinhos) O Complô, de Will Eisner, outro autor que merece um post próprio.

Entrando no mercado nacional, os livros que por aqui não existem são aqueles que não são mais publicados embora sejam clássicos. Um exemplo é Sufferings in Africa de James Riley, que é considerado o primeiro best seller americano e volta e meia aparece em alguma mídia, trata-se de uma obra autobiográfica de um capitão de navio que naufragou na África no século XIX e foi tomado como escravo junto com sua tripulação por beduínos do deserto. Após anos de cativo, maltratado e vendo a morte de seus colegas, ele conseguiu fugir e retornar à pátria, história interessantíssima que gerou vários frutos como a influência na política de Abraham Lincoln que dizia ter se tornado abolicionista ao ler o livro quando jovem.

Outro livro que estava prestes a incluir no post é O Castelo de Otranto, um dos trabalhos mais clássicos da literatura de terror e muito recomendado lá fora, mas que nunca consegui encontrar nas livrarias. Acabei de descobrir que uma nova edição saiu ano passado. Outro que quase entra nessa classificação é Um Conto de Duas Cidades de Charles Dickens. Se você se der ao trabalho de pesquisar qual é o livro não religioso mais vendido de todos os tempos encontrará esse nome. Ora, e como é que nunca li? Simplesmente porque ficou anos sem ser publicado no Brasil e hoje só encontramos UMA editora que o faz, e mesmo assim o preço é absurdamente incompatível com uma obra do século retrasado que já caiu em domínio público, nem um lançamento de autores atuais como Cornwell ou Martin custa tanto.



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Renan MacSan

Estudante de Medicina, leitor de longa data, jogador de games e amante de HQs. Tem como livro favorito O Nome da Rosa e sonha em terminar de escrever o seu. Leitura atual: Dança dos Dragões ; e Londres - O Romance.

15 Comentários sobre Livros que Não Existem (!?)

  1. Dani Toste

    Você faz um post cheio de informações e a primeira coisa que eu reparei foi que usaram a fonte “Disney” para escrever o nome de “Will Eisner” na capa do livro… hauhauhauhaua…

    Eu diria que “Tristana: a maior gota d’agua do mundo” (que eu li na 4ª série)também não existe mais, tentei encontrá-lo para deixar feliz a minha nostalgia e não encontrei.

    Aproveito a oportunidade para falar de um livro que definitivamente existe, mas que uma de suas melhores e mais bem faladas traduções simplesmente parou de ser publicada no Brasil: que é a tradução de Sebastião Uchoa Leite do Alice no País das maravilhas e através do espelho, lançado lá nos anos 80 pela Editora Summus, a versão nunca mais foi reimpressa e hoje tem que ser caçada nos sebos, um verdadeiro desperdício de uma ótima tradução.

  2. Nathália

    É engraçado, o mercado editorial aqui no Brasil tem crescido consideravelmente, no entanto, as editoras não se preocupam em se publicar livros importantes e interessante como os citados acima. Lembro-me que até a pouco tempo estava louca para ler um livro da Elizabeth Gaskel, porem, nenhuma editora o tinha no catálogo, até que recentemente a editora Landmark teve a bondade de colocá-lo no catálogo, mas a preços exorbitantes, é claro. Lembro que os raros exemplares que haviam sobrado dessa autora em portugues, datavam de 1946…

  3. Renan MacSan

    Dani, é o seguinte…
    Eu tava até pensando em falar sobre isso em um post sobre Will Eisner, mas a verdade é que não se sabe ao certo se foi o Eisner que inventou essa caligrafia ou se foi o Disney. Ou se foi uma mera coincidência.

    Alguns especialistas dizem que há diferenças nas letras e que provavelmente um criou independente do outro, mas os fatos levam mais a crer que foi o Eisner o primeiro, e provavelmente os empregados do Disney formataram igual, pois a assinatura que você conhece não era exatamente a do Disney e sim uma forma estilizada e comercial da mesma criada pela empresa.
    Todo mundo pensa logo: Ih, copiaram o Disney, mas na verdade pode ser justamente o contrário.

    Descobri agora que o submarino baixou o preço de Um Conto de Duas Cidades por mais da metade:
    http://www.submarino.com.br/produto/1/21846429/conto+de+duas+cidades,+um/?franq=283844
    Não li, mas não é o livro mais vendido do mundo à toa.

  4. Dani Toste

    Seja lá quem copiou de quem, mas é estranho ver essa fonte na capa de um livro supostamente usado pelo Hitler para justificar os atos contra os judeus… O.O

  5. Lorde Worth

    Um livro interessante que remete ao temo do post é O Último Templário, que trata de um manuscrito que poderia destruir a fé cristã. Acredito que há coisas que deveriam ficar perdidas, como o livro mais amaldiçoado e excruciante que tive o desprazer de ler: O Silmarillion. Por fim, gostaria de pedir aos céus que todos que gostaram do silmarillion sejam devidamente sodomizados por sua grandiosidade macarrônica, O Pastafari

  6. João Uberti

    Opa, sobre o Castelo de Otranto, tem vários exemplares deles na Biblioteca Viriato Correia em São Paulo, a biblioteca pública temática de literatura fantástica. Pra quem não conhece, ela fica próximo ao metrô Vila Mariana em São Paulo, e é onde acontece o Fantasticon – Simpósio de Literatura Fantástica (http://fantasticon.com.br/) Ps: Lord Worth você deveria tomar mais cuidado com como fala sobre o livro que Tolkien considerava sua obra prima em um blog cujos autores são assumidamente fãs do autor. A chance é que centenas de fãs ensandecidos de Tolkien vejam o post, e quem acabe tendo problemas de sodomia seja você. :O) #ficaadica de alguém que faz parte do Conselho Branco a 10 anos, e tem um exemplar da primeira edição do Silmarillion pela Unwin & Paperback e outro da edição ilustrada comprada autografada das mãos do Ted Nasmith na Hobbitcon de 2009.

  7. Gustavo Domingues

    Dani: Will Eisner desmistificou o Protocolo, Hitler não usou uma Graphic Novel para gerar ódio racial.

    Lorde Worth: Entendo e refuto seu sentimento pelo Silmarillion. A primeira vez que li era muito jovem e achei boçal as infinitas descrições dos Valar. Mas quando estava mais imerso no mundo do RPG, percebi que Tolkien não é apenas um escritor, ele é um criador. Talvez sua prosa não seja das melhores(com exceção de O Hobbit) e ele não tenha “Plot Twists” para manter o leitor viciado, mas ninguém cria nomes, línguas e locais como ele. Sendo um fã de cenários de RPG eu decidi reler O Silmarillion e percebi que ele foi o primeiro cenário criado, e é absolutamente um dos melhores até hoje. Um mundo é feito de lendas, heróis e deuses, assim como conhecemos a grécia por suas histórias características (Todo mundo conhece Héracles ou Hércules, mas poucos conhecem Ésquilo, pai da dramaturgia, citado no post). O Silmarillion são as lendas e histórias da Terra Média (Assim como Contos Inacabados e os Filhos de Hurin que expande uma das histórias), e no próprio Senhor dos Anéis, a Terra Média e suas lendas são muito mais importantes do que Frodo e Sauron. Atualmente já li O Silmarillion umas 4 vezes, meu predileto de Tolkien ainda é o Hobbit, mas os livros têm méritos diferentes.

    Queria falar de um livro obscuro. Eu soube que, muito tempo atrás, umas garotas russas escreveram o “Black Book of Arda”, um livro mostrando a visão de Melkor dos eventos do Silmarillion, o que inclusive gerou muitos derivados na Rússia. Não há tradução alguma, e como não falo russo vou ficar na vontade (mas a história geral pode ser vista aqui: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Black_Book_of_Arda).

  8. Gustavo Domingues

    Só um adendo, sou fascinado pela história do lado negro do Silmarillion e etc, por isso gostaria de ler os Black Books Russos. Queria compartilhar uma das imagens que mais gostei de Sauron: http://mattrhodes.deviantart.com/art/Sauron-163177826?q=boost%3Apopular%20sauron&qo=1

  9. João Uberti

    Ótima imagem de Sauron. É sempre bom lembrar que ele ainda não era preso a um corpo terrível e deformado quando forjou o Um Anel.

  10. Lorde Worth

    Não pretendo desmerecer Tolkien e entendo o amor que esse gênio sentia pelo mundo que criou. Não creio que o silmarillion não devia ter sido escrito. Digo que não devia ser lançado. A história da Terra Média é realmente fantástica, o todo é um cenário de RPG incrível. MAS, se Tolkien não lançou essa obra (o silmarillion) em vida porque foi rejeitada e/ou estava inacabada e/ou não tinha a estrutura de um livro ,não direi agradável, mas tolerável, Não acredito que seja o trabalho de qualquer outra pessoa lançá-lo nesse formato. Mas, se o destino (aquele bêbado nojento) decidiu que tivéssemos o livro em mãos, pelo menos que esse apêndice fosse tratado como tal. Tudo o que peço é que tivesse o formato mais próximo de um livro de cenário de RPG. Se isso é impossível, pelo menos que haja UMA ÚNICA descrição de Ulmo, que haja menos apostos seguindo os nomes dos Valar, que haja uma organização cronológica melhor dos fatos (E assim surgiu o sol, agora vamos voltar algumas décadas no tempo para explicar o que estava acontecendo em cada ponto de Beleriand desde que Thingol virou rei).
    Caso o silmarillion não fosse lançado, acredito que o maldito Christopher ainda diria “Ei, galera, não é por nada não, mas meu pai tinha uma porrada de coisas escritas sobre esse mundo aí e elas muito mais legais do que um anelzinho”. Se o silmarillion não fosse lançado, haveria milhões de fãs angustiados imaginando como seria a história completa da Terra Média. Então ainda haveria os doze volumes de The History of Middle-Earth. Quanto a esses, prefiro poupar o Pastafari de tantas maldições.
    Se Tolkien desejaria que seu livro fosse lançado ou não, não sou necromancer para saber. Se está no seu testamento ou não, não sei. Mas tenho certeza quanto a uma coisa: todo livro perdido está envolto em mistério e nos intriga muito, encontrá-los pode ser(geralmente será) uma decepção.
    Se o Silmarillion fosse uma compilação perdida e The History of Middle-Earth não existisse, a obra seria um mistério cujo esplendor só poderíamos especular (não um livro maçante com um cenário genial).

  11. João Uberti

    Lorde Worth, a questão de que o Silma publicado não é exatamente o Silmarillon que Tolkien queria que lêssemos, eu concordo plenamente. Mas eu não acho que seja um livro maçante. Ele não é um romance. Você já leu o Velho Testamento da Bíblia, os Eddas, ou o Kalevala? Ou mesmo Beowulf que na teoria é uma única história, com começo, meio e fim? O Silma me lembra cada um deles, e mesmo que ele fosse publicado com o selo de aprovação do Tolkien acredito que continuaria tendo algumas (não todas) das situações que você apontou. Mitos nem sempre tem pé e cabeça, porque eles não são necessariamente feitos pra mente racional.

  12. Lorde Worth

    João, já li Beowulf e diversos livros de mitologia, entre eles um particularmente maçante sobre celtas. Entendo que o silmarillion é próximo desses livros no formato em que foi feito, e não considero possível que fosse publicado como um livro de RPG (que tornaria a leitura mais simples, talvez), mas ainda acho que se for para corrigir e reorganizar o livro, pelo menos que seja bem feito. Com algumas pequenas mudanças (partindo de que o livro será alterado desde o início), poderíamos ter um livro mais dinâmico sem perder conteúdo. De novo, minha crítica não é quanto a Tolkien ou sua escrita e suas ideias, é contra o modo como o livro foi lançado.

  13. Pingback: Lumos | Bibliophile

  14. Amanda

    Oii gente um livro

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