Review: A Tormenta de Espadas – Sem Spoilers! (se você não quiser) [Game of Thrones, livro 3]

Escrito por: | em 19/09/2011 | Adicionar Comentário |

Antes de começar a escrever me perguntei se valeria a pena uma review de A Tormenta de Espadas, livro 3 de As Crônicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin. Acontece que por se tratar de uma série, o post acaba sendo evitado não só por quem nunca leu nada sobre ela, mas também por quem ainda não leu o livro anterior.

Da mesma forma não posso fazer um texto em branco evitando tocar em assuntos sensíveis, por isso resolvi tomar uma atitude democrática: dividi em partes para que cada um acompanhe até onde foi sua leitura, sem medo de esbarrar em spoilers. Claro que o sentido de “spoiler” varia conforme a pessoa, Sheldon de Big Bang Theory acha que classificar uma obra em muito boa já é algo terrível por causa da expectativa que se cria, mas vou tentar ser o mais sensato possível. Basta clicar no botão “+”.

Leitor 1 – Não conheço nada da série e na verdade nem sei o que estou fazendo aqui:
Se você não tem nenhuma aversão ao gênero fantasia vai gostar da série. Para ver a review do primeiro livro clique aqui. Comente à vontade.

Além disso, a série televisiva da HBO pode ser um excelente incentivador para a leitura.

Leitor 2 – Vi a série da HBO e/ou li o primeiro livro (A Guerra dos Tronos):
Dois anos após a publicação de A Fúria dos Reis em solo americano, Martin nos brinda com A Tormenta de Espadas, e não surpreenderia nem um pouco se demorasse mais para escrevê-lo levando em consideração seu tamanho: são 882 páginas que enriquecem cada vez mais o mundo que já nos foi introduzido. Tido pela maioria das pessoas como a melhor obra do autor, é nela que a grandiosidade das tramas nos é revelada.

Se fosse escolhido um tema para o livro, seriam três: Traição, Vingança e Justiça. Essas três fiandeiras do mundo mágico de Martin levam o leitor a rir satisfeito em um momento e a atirar esse volumoso tijolo contra a parede em outro. Trata-se de uma narrativa completamente sólida e bem pensada, intrincada, com várias linhas se conectando, onde algo que se vê em um ponto de vista de um personagem só vai ter sentido em outro, onde uma coisa falada no primeiro livro e não resolvida só passa a tomar forma real aqui.

Dessa vez o autor não foge tanto da descrição de batalhas como fazia antes, há adição de novos mapas no final (importante dizer pois só fui perceber no meio da leitura), entram novos personagens intrigantes e são acrescentados dois novos pontos de vista. Um deles promete revolucionar a forma como se entende a história!

Olhando por um lado, sim, o tamanho do livro assusta e faz com que se despenda muito tempo para que seja terminado, mas nada lá está por acaso, não há ponta solta, tudo é dito por um motivo, e se não for mostrado ou resolvido agora, vai concerteza ser no futuro. Cada vez se sabe um pouquinho mais da história do mundo, e mais coisas são reveladas deixando um campo fértil para diferentes teorias.

Casamentos e músicas desempenham um importante papel. Há diversos menestréis espalhados por Westeros e suas canções permeiam todo o livro estabelecendo metalinguagens que enriquecem a narrativa. Destacam-se “O Urso e a Bela Donzela”, “A Mulher do Dornês” e “As Chuvas de Castamere”.

Martin cria a todo tempo conflitos para os personagens, se forem bons o suficiente conseguem se adaptar e resolvê-los. Se não morrem.

Leitor 3 – Li o segundo livro (A Fúria dos Reis):
 Os dois pontos de vista que passam a fazer parte da narrativa são os de Samwell Tarly e Jaime Lannister. Percebe-se que a inclusão de Sam é a forma do autor de mostrar o que está acontecendo com a Patrulha da Noite, pois Jon está com os selvagens. Já Jaime está lá para começar a mostrar como os “vilões” se sentem e para que se entendam suas atitudes.

Um dos grandes destaques do livro é a apresentação da verdadeira face do Regicida que sem dúvida alguma muda a maneira do leitor enxergá-lo. Mas Samwell acaba não acrescentando tanto, visto que seu personagem pouco cresce e sua covardia beira a insanidade.

Pessoalmente continuo crendo que as partes de Jon e Davos são o ponto alto, já a história de Daenerys toma um rumo não previsto e de certa forma forçado, fazendo com que seja mais enfadonha, embora muitos leitores achem o contrário. Já Sansa, como sempre, se faz necessária para que acompanhemos os antagonistas.

A Guerra dos Cinco Reis vai se encaminhando ao final e o que vemos é uma Westeros sem lei, com bandidos aparecendo em cada esquina. Passamos a saber muito mais sobre o fatídico torneio de Harrenhall, onde foi plantada a semente que culminaria na história que acompanhamos. Onde Rhaegar encontrou Lyanna, Jaime foi nomeado cavaleiro da Guarda Real, Ned se apaixona e mais.

Minha única crítica fica para R’hlorr, o deus de Melisandre e Thoros. Que toma uma dimensão inesperada e talvez não se encaixe muito na proposta da série em comparação com as outras divindades.

Leitor 4 – Li esse livro / Não tenho medo de spoilers:
Ok, toda vez que for a um casamento e a banda estiver tocando mal vou passar a desconfiar. Arrisco-me a dizer que o casamento vermelho é a maior cena da série, tanto que Martin falou que foi das mais difíceis de escrever, foi a última coisa que fez do livro pois ficou adiando.

Já a história de Jaime pareceu-me muito manipulativa da parte do autor, como se ele quisesse dizer: “Olha, sou um excelente escritor e agora vou fazer você passar a gostar do antagonista. Ah, e tome mais um pouquinho de plot twists.” Sim, é bom ver a parte dele e até legal saber que ele teve seus motivos para ser o Regicida, mas e todo o resto? Vão passar a inocentá-lo por amor? Ou pelos filhos? Ele mesmo falou que se tivesse que escolher entre o filho e a mão ele escolheria a mão. Não só isso, é extremamente arrogante, em qualquer ambiente de trabalho/estudo as pessoas arrogantes são as mais odiadas. Mas do Jaime pode gostar?

Falo isso pois sei que após esse livro ele foi alçado à posição de herói pelos fãs, sendo o maior representante da série, o que discordo. Afinal, quem aqui ao ver o filme A Queda, tão parodiado no youtube, não sentiu uma certa pena de Herr Führer ao ver seu império desmoronando? Ao acabar o filme, podemos dizer: sim, ele era humano, mas fez muitas coisas que condeno, por isso não gosto dele. Se Jaime tinha motivos para matar o rei Aerys por que não contou isso antes? Ou ele queria dar uma de Erasmo Carlos com “a sua fama de mal”?

Outro ponto é: não entendo autor que mata os antagonistas de uma paulada só, é quase inadmissível, eles fazem os protagonistas sofrerem tanto e depois morre em menos de um minuto? Vide Joffrey que morreu apenas engasgado e Tywin que morreu somente com um tiro de besta. Já Ned morreu passando a vergonha de confessar que é traidor, depois de ficar dias preso numa cela e ver suas filhas nas mãos dos inimigos ; Robb morreu vendo seus amigos morrerem, vendo sua mãe desesperada e ainda teve o corpo profanado quando costuraram a cabeça do lobo ; Catelyn morreu achando que todos os filhos estavam mortos menos uma, chegando a enlouquecer e talvez sendo violada. Não consigo entender, Martin tinha que dar ao leitor pelo menos o gostinho de ver Tywin sabendo da relação entre Jaime e Cersei.

Davi e Golias… versão Ultimate

Após as críticas negativas tenho que ressaltar o excelente uso das músicas por todo o romance, estão o tempo todo conectadas com o que está acontecendo ou vai acontecer. Achei que não veria algo assim desde a metalinguagem de Watchmen. Pensando após finalizar a leitura percebi que dentre os diversos significados, “O Urso e a Bela Donzela” são Arya e Sandor Clegane ; “As Chuvas de Castamere” se remete a todas as histórias de vingança/traição do livro, principalmente sendo a música sinal do casamento vermelho, também representando o fim da casa Stark assim como foi o fim dos Reynes (pelo menos para os inimigos) ; e “A Mulher do Dornês” é a trama do Víbora Vermelha X Gregor Clegane, pois este violou a dornesa, e agora seu “marido” vai fazê-lo provar o aço.

Considerações finais:

Martin disse que esse romance tinha originalmente 1521 páginas, e só após a edição passou a ter 992, portanto não reclamem, poderia ser bem mais longo. Acredito que essa primeira trilogia já estava toda esquematizada por ele, pois a produziu num tempo bem curto, tanto que nos anos anteriores a As Crônicas de Gelo e Fogo ele pouco trabalhou, provavelmente desenvolvendo a história.

O livro seguinte (volume 4), ficou imensamente maior do que este, assim teve que tomar a decisão de dividi-lo em duas partes. Nesse próximo ele enfatiza os pontos de vista das pessoas ao sul de Westeros, adicionando mais uma enxurrada de personagens, e portanto realocando algumas das melhores narrativas para o volume 5. E não espere muitas alegrias pois o inverno está chegando e o nome O Festim dos Corvos não é nada de bom agouro.

Para finalizar, um vídeo com a canção “As Chuvas de Castamere” musicalizada por um fã e autorizado pelo Martin, himself. Conta a história dos Reynes de Castamere  que se revoltaram contra os Lannisters e foram derrotados por Tywin quando este tinha apenas 21 anos, tendo também o leão como símbolo e sendo quase tão ricos quanto eles. A família foi toda dizimada e o castelo deixado em ruínas.



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Renan MacSan

Estudante de Medicina, leitor de longa data, jogador de games e amante de HQs. Tem como livro favorito O Nome da Rosa e sonha em terminar de escrever o seu. Leitura atual: Dança dos Dragões ; e Londres - O Romance.