O Último Desejo

Escrito por: | em 10/01/2012 | Adicionar Comentário |

O Último Desejo – A Saga do Bruxo Geralt de Rívia – Livro 1, conta a história do famigerado Geralt de Rívia, um “bruxo”, e também um mutante, treinado e alterado desde a mais tenra idade para caçar os monstros que assolam seu mundo. O livro de Andrzej Sapkowski traz um mundo de fantasia obscura, repleto de ambiguidade e humor negro, povoado por criaturas tradicionais de mitologias européias (principalmente eslavas mas até mesmo gregas e germânicas) e sem os moldes de contos de fadas.

A história começa com mais um dos “serviços” de Geralt sendo realizado em uma cidade (curiosamente é a introdução do primeiro jogo  The Witcher) onde ele acaba gravemente ferido. Ao se recuperar de seu ferimento em um templo Geralt descansa e medita enquanto é visitado por um velho amigo e se lembra de suas aventuras. Esta é a forma de amarrar as aventuras de Geralt, que foram publicadas originalmente em forma de contos na revista “Fantastyka”, sendo que o primeiro desses contos foi em 1986, ainda quando Sapkowski era apenas um tradutor da revista.

As viagens de Geralt lembram os contos de Conan, o bárbaro, de Robert E. Howard, que Sapkowski inclusive é fã, de forma que suas aventuras envolvem violência, inteligência e por vezes sexo selvagem. De certa forma eu achei curioso como Geralt resolve seus problemas: Ou ele mata, ou ele conversa ou ele faz sexo com eles (Conan não costumava conversar).

A narrativa de Sapkowski é rápida e bem humorada, sem grandes lapsos de tempo transcorridos entre uma cena e outra mas também sem detalhar excruciantemente o que o protagonista faz em seu tempo livre. A histórias se complementam e fornecem muitas informações à respeito de Geralt, o homem polido e frio, que se distancia da humanidade quando é agredido e à abraça com sofreguidão para ser amado. Sapkowski tem grande mérito em seu linguajar e invenções, pois os nomes próprios de personagens e cidades soam legítimos e seus monstros são variados e bem elaborados.

Por vezes, ao ler o Último Desejo, me lembrava do Caça-Feitiço de Joseph Delaney, por haver um protagonista se utilizando de superstições e “mandingas” para dar conta de determinados monstros, como é o caso de Geralt, que prepara um ramo de acônito no caso de encontrar algum lobisomem em uma floresta que passava. Mas além de ser mais antigo, o bruxo é muito mais violento que o Caça-feitiço, carregando duas espadas, uma de prata e outra  forjada de ferro meteórico, para dar cabo das crias das trevas.

Geralt em si é o que pode se considerar um protagonista “estiloso”, sua aparência é marcante mas não feia, sua habilidade com esgrima é bem característica e ricamente detalhada, seu sucesso com as mulheres é inquestionável (farejo uma Mary Sue). Além da perícia com armas, Geralt conta com magias e poções, além do controle absoluto do próprio corpo, para caçar os monstros. Alias, algumas vezes eu entendo que a praticidade seja sacrificada pelo “estilo” do personagem, que carrega suas espadas nas costas, local notoriamente horrível para se carregar uma espada, sacrificando ângulo e força no saque, e por carregar uma arma que não se associa aos caçadores, pois a espada é uma arma de guerreiro, de soldado, uma lâmina grande que mantém seu inimigo afastado e serve para aparar golpes, sendo que caçadores usam lanças e arcos. Mas esta é uma reclamação de cunho prático, e como Sapkowski sabe que ambientação supera verossimilhança, não é bem colocada em um mundo de fantasia, até porque o autor entende bastante disso, sendo um renomado entusiasta dos jogos de RPG, tendo inclusive escrito seu próprio livro do tema, Oko Yrrhedesa.

O Último Desejo é o primeiro dos sete livros sobre Geralt (oito se contarmos o “Coś się kończy, coś się zaczyna”). A saga de Geralt deu origem à quadrinhos, um livro de RPG, um jogo de cartas (TCG), um filme para a TV, um seriado e dois jogos de computador. Recentemente, Sapkowski está escrevendo romances históricos.

Capa brasileira

No Brasil a tradução está à encargo de Tomasz Barcinski, o zeloso(muito zeloso) tradutor que traduziu direto do polonês, evitando que uma dupla tradução vinda do inglês perdesse muita substância. A tradução têm pontos que eu pessoalmente mudaria, mas é um trabalho detalhista e feito com muito esmero. A capa do livro é bela, mas as informações contidas nela são questionáveis, como a quantidade de livros vendidos, mas vi que existe um padrão pois aparentemente as capas em espanhol também são assim. Senti falta de um bestiário ao fim do livro, soube pelo tradutor que o próprio autor o dissuadiu de fazer um , pois contando todos os livros haveriam monstros demais, mas apesar disso muitos monstros ficam mais à cargo da imaginação do leitor do que á tradução, pois eu mesmo imaginava uma quiquimora como uma aranha gigante (um salve para a Laracna e Ungoliant) e descobri que ela é assim.

Recomendo fortemente o livro, li ele em um único dia (ajuda se você estiver no hospital) e fiquei ansiando por mais ao fim.

 




Categorias: Review: Literatura
Tags: , , , , ,

Gustavo Domingues

Leitor inveterado e crítico mal humorado, pretende criticar todos os autores até alienar a literatura para sempre!

Loading Facebook Comments ...

12 Comentários sobre O Último Desejo

  1. Lorde Worth

    Muito bom, Gustavo. O Último Desejo é um livro que, embora ache raso como romance solo, serve como uma excelente introdução ao mundo e os personagens que permeiam a saga propriamente dita de nosso Witcher querido. Quanto à tradução, acompanhei a colossal discussão, mas ainda prefiro chamar o Geralt se não de Witcher, pelo menos de Caçador. Diferente do que você disse, acho que o mundo do Geralt não só segue os moldes de contos de fadas como se baseia inteiramente em distorcê-los para criar os primeiros dilemas morais da série (como o conto The Lesser Evil, não sei como foi traduzido, mostra muito bem).
    Sim, Geralt resolve muitos problemas com o poder do sexo, algo que foi comicamente traduzido nos jogos, como você deve se lembrar, naquela inocente coleção de Sex Cards (ainda bem que essa idiotice foi substituída por cenas de sexo bem contextualizadas no segundo jogo).
    Sobre as espadas, não creio que isso seja praticidade sacrificada por estilo. Sim, é algo mais estiloso, mas também há um contexto para isso. Ao carregar a espada nas costas, Geralt segue preceitos do Caminho dos Witchers (ou Caminho dos Bruxos, na tradução) e consigo apresentar três motivos muito bons: exatamente por ser uma posição com tantas penalidades desencoraja o caçador a sacar a arma antes de pensar bem na situação e acredite, há caçadores que não são tão controlados quanto o Geralt; ao não prender as bainhas no cinto, sobra espaço para outras armas, amuletos e artefatos necessários dependendo do “serviço”; um caçador pode precisar escalar muralhas, atravessar densas florestas, pântanos e rios lamacentos, uma espada nas costas facilita todas essas proezas e mantém as lâminas limpas. E por que espadas? Lanças são muito “trambolhosas”, menos furtivas, pouco funcionais a pequenas distâncias e menos versáteis. Arcos dependem de flechas, manutenção muito mais constante e são inúteis contra grupos grandes de inimigos. Ao usar a espada para manter o inimigo a distância e aparar ataques, o caçador ganha tempo para pensar e planejar.
    Por fim, O Último Desejo é o espécime de livro que recomendo a todos que queiram começar a ler fantasia sombria. Por mais que não apresente outros personagens marcantes como Vesemir e Triss e não chegue a falar de Nilfgard, faz um ótimo trabalho em seus pequenos contos ao desenvolver bem Geralt, Dandelion e Yennefer, figuras complexas que servem de base para a série. Espero que o Tomasz continue com o trabalho nobre de traduzir tal pérola para o Brasil.

  2. Priscilla Rúbia

    Bastante interessante. Fiquei muito curiosa. Se olhasse só para a capa do livro, n imaginaria o conteúdo nunca duehduehde

  3. TOMASZ BARCINSKI

    Caros Gustavo, Lorde Worth e todos demais amigos que se envolveram na primeira discussão sobre o termo “bruxo”.
    Para evitarmos uma nova polêmica quanto ao fato de Geralt portar a espada às costas, gostaria de fazer um confissão pública: ao traduzir a palavra polonesa “miecz”, eu cometi um erro proposital, pois o seu correspondente em português é “montante”.
    “Montante” (vejam na Wikipédia), é uma enorme espada da época medieval usada com ambas mãos e, em função do seu peso, presa às costas ou ao cavalo.
    Convenhamos que usá-la num livro em português soaria muito estranho. Imaginem uma frase como “Geralt ergueu seu montante e desferiu um golpe…” ou algo parecido. Ou então o título do segundo livro de contos de Geraalt sendo “O montante do destino”!
    Diante disso, adotei o termo “espada”, que é mais fina, mais leve e usada apenas com uma das mãos. Às veses, um tradutor se vê forçado a cometer erros dessa natureza. Conto com a compreensão de vocês, principalmente por o termo “espada” ser muito comumente usado para definir um espadão do tipo “montante”. Vocês já ouviram alguma vez qualquer referência a Excalibur como sendo um montante? Sempre é chamado de espada, embora, assim como a do Geralt, não o seja.
    Agradeço os comentários elogiosos à tradução e confirmo que “A espada do destino” deve aparecer nas livrarias muito em breve. Enquanto isso, estou concluindo a tradução so primeiro livro da saga de Geralt propriamente dita: “O sangue dos elfos” e aguardo ansiosamente a confirmação de que WNF Martins Fontes irá comprar os direitos dos quatro volumes restantes.
    Um abraço
    Tomasz

    • Lorde Worth

      Nuuuuuuooooooooossa. MEODEOS!
      Conheci o Geralt pelo primeiro jogo e depois até cheguei a assistir o live-action fora é claro estar lendo os livros (edições em inglês), imaginar que o Geralt empunha um montante é não só muito difícil mas parece muito errado. Obrigado por traduzir como espada!
      Independente do que eu ache sobre a tradução do neologismo da profissão do Geralt (seja Witcher, como estou acostumado, Hexer, Caçador, como prefiro traduzir, ou Bruxo) repito que achei sua tradução ótima. Li trechos do livro em português, que comprei para um amigo,e com certeza lerei sua tradução d’A Espada do Destino. Parabéns novamente por realizar a tarefa de dar a muitos a chance de conhecer uma obra tão profunda e intensa quanto a saga do Geralt.

  4. Rogério Ketzer

    Sou fã dos games, li o 1º livro em inglês, mas, é claro, quero ler em portugues… só peço que consigas acabar a série completa o quanto antes… quero ler todos!!!

    • Tomasz Barcinski

      A última informaçao que tenho da editora é que o segundo livro – A espada do destino – estará disponível nas livrarias ainda neste semestre.
      Já traduzi o terciro livro – O sangue dos elfos – que, na verdade, é o primeiro volume da saga, e no momento estou traduzindo o seguinte – Tempo de desprezo.
      Tomasz

  5. Tomasz Barcnski

    Caro Gustavo,
    Conforme prometido, informo que o segundo livro de contos sobre Geralt de Rívia, A espada do destino, foi lançado hoje, dia 26 de junho e já deverá ser encontrado nas livrarias. O livro seguinte, O sangue dos elfos, e que é o primeiro volume da saga propriamente dita já está traduzido e, segundo a editora WMF Martins Fontes, será lançado no início de 2013.
    Tomasz Barcinski

  6. Kleber

    Tomasz Barcnski obrigado por todas essas informações, que você continue traduzindo esses livros da Saga de Geralt de Rivia.
    No aguardo do lançamento do Sangue dos Elfos.

    Tomasz Barcnski se eu fosse você, eu faria um site ou blog, explicando algumas duvidas sobre os livros e alguns pequenos spoilers.
    Acredito que seria interessante.

  7. Tomasz Barcinski

    Caro Kleber,
    Muito obrigado pelo seu comentário. Já estou traduzindo o quarto livros sobre Geralt, intitulado TEMPO DE DESPREZO.
    Quanto à idéia de um site ou blog, não sou muito adepto destas tecnologias, mas se você tiver interesse, entre no site:
    http://www.cafecomgames.com/podcast/7316, onde você poderá me ouvir falar no podcast #61 de 12 de dezembro último por mais de uma hora sobre a saga.

  8. Adriano

    Olá Tomasz Barcinski sua tradução está perfeita você é um excelente tradutor , estou ansioso pelo terceiro livro da saga . Abraços.

  9. Gabriel Sparks

    Olá Tomasz, sou um grande fã das obras do Sapkowski e acho que a tua tradução está impecável. Obviamente eu não li os livros em polonês, mas pelo pouco conhecimento que tenho sobre a saga estou extremamente contente com teu trabalho.
    Sei que tu já traduziste O Sangue dos Elfos e está com a tradução em andamento do Tempo de Desprezo, de acordo com tuas postagens neste site mesmo. Tu não sabes quando o Sangue dos Elfos será lançado? A saga do Wiedźmin acabou se tornando minha leitura favorita e eu mal posso esperar pelo terceiro livro.
    Abraço!

    PS.: Ouvi sua entrevista no podcast #61 do Café com Games, gostei muito de saber mais sobre o senhor que está a traduzir as histórias de Geralt. Ganhaste um fã.

  10. Luan

    Muito boa resenha. Parabéns. Deveria postar mais!

Adicione um comentário