Tradução: e as capas?

Escrito por: | em 19/04/2012 | Adicionar Comentário |

Ao invés das costumeiras Notícias Subterrâneas, hoje venho falar sobre um livro que comentei, pasmem,em meu primeiro post. Isso mesmo, meses atrás comecei as Notícias Subterrâneas falando de Heirs of the Blade, último livro da série Shadows of the Apt, e coloquei na lista um pequeno tapa-buraco chamado Down These Strange Streets, uma coletânea de contos editada por George R. R. Martin e Gardner Dozois. Bom, a editora Leya, em sua política de afogar-nos em livros do Martin lançará Ruas Estranhas no Brasil. ruas estranhas Não li nada do livro após seu lançamento, não conheço sua qualidade, não estou parabenizando ou criticando a Leya pela iniciativa. Estou feliz pelo lançamento de um livro que já considerei Subterrâneo no mercado nacional, embora tenha dúvidas quanto a até que ponto a escolha de lançá-lo seja justificada por sua qualidade. Novamente, não sei o quão bom o livro é,  embora grandes autores estejam envolvidos. Minha razão de estar aqui é comparar a capa brasileira à original: down these strange streets

 Minhas dúvidas (e gostaria de saber a opinião de cada um de vocês) são sobre a posição dos nomes dos autores na capa.

 Muitos devem saber que sou adepto da teoria de que livros são sim vendidos pela capa. Independente do quão imparciais ou críticos nos consideremos, sempre julgaremos a capa primeiro. E é a primeira opinião que conta.

 A capa original de Down These Strange Streets me desagradou profundamente desde o início pela quantidade de informação exprimida em blocos desagradavelmente grandes. A capa brasileira, em oposição, centraliza a informação com muito menos poluição visual e uma ilustração muito mais agradável. Mas qual a informação apresentada?

Eis a grande questão. Na edição brasileira o nome de Martin é colocado na mesma posição que ocupa n’As Crônicas de Gelo e Fogo, série de sua autoria. Pensando na aparência deste livro em minha estante sinto que deveria estar feliz por seguir o estilo gráfico das capas de seus outros livros. Talvez seja esse mesmo “seus” que me preocupa. Por que colocar o nome de Martin com tamanho destaque sendo que ele não é o autor?

 Na edição americana, o nome de Martin está esmagado sob a poluição visual, em um tamanho humilde ao lado do nome de Gardner Dozois. Por que então, na brasileira, Dozois está exilado em um “PS” logo abaixo do nome colossal de Martin? E quanto a todos os outros autores que de fato escreveram para o livro? Por que em uma antologia o nome de um dos coeditores é muito maior e destacado até que o nome da própria coletânea?

Sim, entendo que assim o livro venda melhor. Com tantos leitores sedentos de mais histórias descerebradamente violentas e secas do autor d’A Guerra dos Tronos pelo Brasil afora, não tenho dúvidas de que será um sucesso considerável. Exatamente aqui chegamos ao outro lado da questão, não o do autor, mas do leitor. Quantos comprarão o livro pensando que Martin tem de fato algum envolvimento criativo com a obra? Entendo que mudem os autores da capa devido ao sucesso que alguns fazem ou não no Brasil (Conn Iggulden está em uma posição de destaque, por exemplo), mas isto?

Até que ponto as editoras são livres ao traduzirem o livro? Até que ponto outras partes (os detentores dos direitos do livro) não analisaram as mudanças e foram coniventes com isso? Quantos foram coniventes? Não há quem analise a capa da tradução para criticá-la? Não há alguma preocupação dos agentes dos autores quanto a isso? Nenhum agente sente que seu cliente foi prejudicado ao ser jogado para segundo plano dessa forma?

Ao menos Glen Cook está entre os autores da capa brasileira, talvez haja alguma chance de mais um de meus clássicos favoritos de fantasia sombria ser lançado por aqui no futuro. Só espero que Chronicles of the Black Company não venha com o nome MARTIN estampado em letras brancas garrafais no meio da capa.

Perdão, George, sei que a culpa não é sua, estou inclusive lendo mais um livro seu agora, mas isso é difícil de engolir.

Gostaria de saber a opinião de cada um de vocês sobre a influência da capa na escolha de um livro e como uma informação levemente distorcida, como acredito que aconteceu neste caso, pode prejudicar uma experiência. Citem outros casos em que uma informação de capa foi drasticamente modificada ou que foram levados a ler algo completamente diferente daquilo que a capa passou. E sim, concordo que a arte da capa brasileira de Ruas Estranhas é muito melhor.



Categorias: Diversos
Tags: , ,

Lorde Worth

Caçador de Hobbies exóticos, leitor obsessivo e jogador compulsivo.

11 Comentários sobre Tradução: e as capas?

  1. Ronaldo Cavalcante (@RonaldoCav)

    Eu estou tão assustado quanto você, Sr. Worth. A diferença é gritante, obviamente alterada para o marketing. Puro e simples.

    Não vou me assustar se vários leitores comprarem somente porque tem o nome gigante de George R. R. Martin com o mesmo padrão de seus livros na capa, não vou mesmo. Muitos realmente acharão que tem muita de sua influência nos contos. Isso se chegarem a ver que na verdade o lançamento é uma antologia, né? Porque do jeito que está não me adimiro de ver muitos fãs pouco se importando para as outras letras miúdas (outros autores e informação sobre o livro sendo uma antologia)… “É UM LIVRO NOVO DO MARTIN!! Quanto é, por favor?” (se é que hoje em dia os fãs perguntam o preço, não é? Convenhamos… o cara é BOM!)

    Minha opinião sincera é que os outros autores sabem sim dessa modificação. Muitos de seus nomes não são muito vistos por aqui, o de Martin é outra história. Se forem conhecidos pelo nome de outro autor, ótimo, não? O problema é se o leitor não der a mínima para quem escreve o conto, afinal, foi editado pelo George R. R. Martin em letras garrafais e gigantes, o que importa o resto?

    Como autor novo, desconhecido, subterrâneo de carteirinha, ADORARIA ver meu nome pequeno em uma coletãnea com o nome de um autor muito conhecido, sem pensar muito alto, alguém como Eduardo Spohr, Leonel Caldela, Raphael Draccon … alguns ícones da fantasia brasileira atual…

    O que quero dizer é… Alguns dos autores são suficientemente “subterrãneos” aqui no Brasil apesar de serem best sellers lá fora… Porque não usarem o nome do editor (mais famoso que todos os autores juntos, realmente muito estranho, né?) para essa coletãnea dar certo no Brasil? Acho super válido.

    Vamos a capa… Muito melhor que a versão original, bora combinar. Mas é evidente que é uma capa dos livros de Martin. Inegável.
    A capa, sim, influencia de primeira… felizes aqueles que ainda vão de encontro a um livro com o pensamento neutro quanto a capa. A minha mesmo é linda, sem modéstia porque é, ponto final, mas não escolhi de primeira, todo o pessoal do marketing, vendas e edição que votou como a perfeita. Hoje em dia não vejo minha obra com outra capa, mas não era de longe o que eu queria… queria algo um pouco mais ligado a tudo, relacionado com certas ideias… mas bem, acho que passei a ideia. A capa é pura VENDA.

    Não me recordo agora, Sr. Worth de alguma capa que tenha me enganado hahaha.. mas lembrando posto aqui.

    Muito obrigado por ter levantado essa discussão. Espero ver outras opiniões também…

    • Lorde Worth

      Ah, estava ansioso para saber da opinião do pessoal engajado no mercado editorial.

      Sim, concordo que o objetivo máximo de uma capa seja a venda e que poucos daqueles autores tem algum nome de fato no brasil. Meu medo é mesmo quanto a até que ponto o Martin como editor deve ter o maior nome da capa, mas golpe ou não tenho certeza de que vai cumprir o objetivo da editora.

      A capa do Cinco Luas funciona perfeitamente, a equipe de marketing sabia o que estava fazendo. Foi só ela mesmo que me fez comprar o seu livro XD Sacanaaaaaaaaaagem!

      E eu também adoraria ter meu nome minúsculo em uma coletânea editada pelo Leonel Caldela ou pelo Spohr (ainda não li o Dragões de Éter, não posso colocar o Draccon na lista).

      • Ronaldo Cavalcante (@RonaldoCav)

        Olha…. tem tanta gente que acha a capa LINDA que tenho medo de terem comprado por esse motivo único mesmo kkkkkkkkkkkk
        Até brinco com alguns leitores “Gente… se não quiserem ler tá tudo certo… dá uma ótima decoração de mesa e estante”

        Quanto aos objetivos da editora sem dúvida serão alcançados… mas e quanto aos objetivos dos autores? Eles serão lembrados?

        Chegou a ler a trilogia da Tormenta, Sr. Worth? Ooooooou.. lê logo dragões de Eter que quero sua opinião… Draccon realmente escreve muito bem… ótimo ritmo. Abração!

        • Thyara

          Minha primeira impressão também foi de que o livro era do George R. R. Martin. Para minha surpresa, era melhor ainda! Uma coletânea dessas, com todos esses autores é de tirar o chapéu. Mas muita gente foi pega de surpresa, e na euforia, comprou o livro sem muita atenção. Basta ver as resenhas no site http://www.skoob.com para perceber a decepção. Basicamente não estamos acostumados com muita informação nas capas. A forma como o nome dele foi destacado, igual aos livros dele, leva a crer que se trata de mais um livro escrito por ele.
          Os organizadores do livro devem sempre aparecer em destaque quando são vários os autores, isso é quase uma regra de editoração. E concordo que a capa está muito melhor que a americana. Mas eles erraram ao usar o mesmo grafismo dos livros do Martin. Pegou mal mesmo, sejamos honestos.

  2. Bruna Rodrigues

    Nossa! Acho isso absurdo. Não podiam fazer isso, ao menos não era para poder. Tinha que ter alguém para aprovar ou não a capa. É injusto com os outros colaboradores e com os leitores que compraram um livro acreditando em algo que não é real.
    Entendo que alguns autores aceitem isso, pois assim o livro venderá, mas eu ainda acho que não deveria ser feito.
    Quanto a capa, sem duvida está muito melhor que a original. A capa do livro faz parte do marketing (até por isso o nome de George R. R. Martin em letras garrafais )e se não souberem como organiza-la, acabam por trabalhar contra.
    Adorei a questão ter sido levantada.

  3. Rafael

    Isso é revoltante! Esse tipo de marketing pode mesmo ajudar as vendas, mas não com meu apoio. Me recuso a comprar um produto que faça tão pouco do consumidor. Tudo o que consigo extrair dessa capa é descaso da editora com o seu público.

  4. Bruna Rodrigues

    Concordo com você Rafael.
    A editora nao teve respeito nem com os autores nem com o publico

  5. Felipe Oliveira

    Bela análise de capa

  6. Melissa

    Então, eu acho as capas da Leya muito bonitas e bem feitas, mas essa de colocar o nome do Martin no meio foi muito tosco. Eu achei uma falta de respeito com os autores dos contos, que no fim das contas são as mentes criativas por trás, não?

    Okay, o nome do Martin tem que estar na capa, mas do jeito que está, dá uma falsa impressão de que o livro é dele. BEm inescrupolosa essa estratégia da Leya que está claramente só a fim de vender mais livros.

  7. Nilda

    Minha impressão como leitora?

    Que é mais um livro do Martin, como temática de fantasia/medieval, já que é muito parecida com as de Crônica de Gelo e Fogo.
    Como assim o livro não foi escrito por ele? Vocês tem certeza disso?

    Ainda bem que li bem a capa antes, e já sabia que era uma coletânea, senão ia ficar mais brava que o normal..

  8. Noel

    O nome do editor na capa, sem nenhuma menção aos autores em si é normal. Mas o nome do Martin em fonte GIGANTE e no mesmo padrão das Crônicas não me incomodaria SE… o do Dozois estivesse junto (ok, poderia até ser abaixo, mesmo eu achando que deveria estar acima) no mesmo tamanho e formato.
    Cacete! Dozois já era o Dozois antes do Martin ser alguém… Seria como relançarem ‘Eu, Robô’ do Asimov, com um gigantesto “DE WILL SMITH” no meio, e uma notinha “história original de Asimov” na capa traseira. Eu quase NÃO comprei o livro pela capa nacional (eu já tinha lido metade do livro em inglês mesmo), mas a capa original é mesmo tão ruim, que… dos males o menor. rs!!!

Adicione um comentário