Review: O Caçador de Apóstolos & Deus Máquina

Escrito por: | em 14/07/2012 | Adicionar Comentário |

Saudações a todos! Após tantos meses em que escrevo as Notícias Subterrâneas por aqui, ainda não escrevi sequer uma review. E há algumas pendentes. Ou melhor, várias pendentes. Assim chegamos às “Reviews Malignas com Lorde Worth” (ou somente Reviews, para poupar espaço)!


No intuito de espancar impiedosamente cada um dos melhores livros que degustei ao longo dos últimos meses, conferi minha lista de reviews prometidas e pendentes e, não surpreendentemente, constatei que o primeiro da lista é O Caçador de Apóstolos, do Leonel Caldela. Entretanto, após concluir minha leitura de Deus Máquina, encontro extremas dificuldades em dissociar os dois (Sr. Caldela, tive a impressão de que acabou o primeiro rascunho, percebeu que estava grande demais e cortou-o na metade). O resultado: os dois se prostrarão frente ao tribunal da inquisição juntos.

E se ainda não leu os livros, sem problemas. Não haverá spoiler algum até A Tortura. 

As Acusações

Bem-vindos ao tribunal. Vejamos o que temos nas acusações. Não, não, podem tirar as focinheiras deles . Isso, amarrem na roda, faz tempo que não ouço o som de ossos quebrando. E coloquem-nos dentro dos sacos plásticos, não gosto de sangue no meu casaco esvoaçante. Meu café, obrigado. Onde estávamos?

Ah, claro. A introdução.

Como já dito, O Caçador de Apóstolos e Deus Máquina são de autoria de Leonel Caldela (“O Cornwell Brasileiro” nas palavras do Eduardo Spohr), um dos maiores autores de fantasia nacional, autor-de-casa da Editora Jambô e responsável pelos livros na Trilogia da Tormenta. Em algum dos primeiros posts das Notícias Subterrâneas falei sobre como sou fã do Caldela (quero deixar isso bem claro antes de levar adiante a execução).

O enredo se desenrola em uma ilha habitada por uma sociedade muito semelhante à da Europa medieval. O mundo é, a primeira vista, não muito diferente do nosso próprio, sem criaturas mágicas ou sequer alguma magia. A narrativa é feita por Iago, um dramaturgo (não um bardo!) fugindo da Igreja de Urag, também não muito diferente da Igreja Católica em seus tempos mais sombrios. “Sombrio” explica bem o clima geral da obra, aliás. Pelos olhos de Iago vemos o progresso de uma rebelião herege sob o estandarte de Atreu “O Soldado do Diabo” contra as forças dos cardeais, e simultaneamente a ascensão de Jocasta, uma nova papisa.

A princípio, o grande charme de O Caçador de Apóstolos está na narrativa de Iago, com seus comentários melancólicos e muitas vezes cínicos. O livro começa com uma tempestade de tiradas muito bem posicionadas, incluindo a citação a “sangue de cheiro e merda” no primeiro capítulo e algumas mentiras discretas para deixar a história mais dramática que depois são desmentidas (“na verdade Atreu não cavalgava um majestoso cavalo, mas uma mula, só que assim fica mais heroico”).

Essa narrativa extremamente pertinente e bem escrita é só uma primeira camada. Abaixo das cenas de ação, descrições de momentos asquerosos e diálogos divertidos, há diversos comentários sobre fanatismo e religião, que compõem uma discussão que a princípio não esperava encontrar no Caçador de Apóstolos. No entanto, em Deus Máquina a discussão perde a segunda voz, que defendia o valor da religião como uma opção de cada um (com um valor e um mistério) e, em determinado momento, o livro torna-se tremendamente niilista de uma forma bem negativa. Vejam bem, sou um agnóstico, não estou ligado a religião alguma e geralmente sou muito cético, mesmo assim fiquei incomodado com algumas posições muito extremas mais para o final do livro. Claro, a voz que ouvimos é a de Iago, um inimigo da Igreja, mas ainda assim até determinado momento ele defende posições de fanáticos religiosos como Ganimedes e Jocasta. E mais importante, não só nas palavras de Iago percebe-se essa mudança de argumento, mas também em certos elementos de enredo. Sem spoilers, guardo-os para A Tortura.

Deixando de lado a camada mais profunda e voltando a um nível superficial. As descrições de cenas de ação são cruas, sem tentativas de amenizar a sanguinolência, exceto por uma cena de tortura em Deus Máquina que foi bem mais leve do que poderia. Não só as cenas de ação, mas todas as descrições seguem uma forma que lembra Cornwell (ora, o Spohr afinal estava certo).

Quanto aos personagens, não posso avaliá-los como um todo. Iago, o cardeal Derionde e Benedict “o Dragão de Deus” são complexos o suficiente para que cada um de seus diálogos seja um atrativo a parte. O general Ganimedes é uma figura carismática e interessante, embora sem tantas complexidades. Os outros são no geral figuras muito rasas, como oitenta e cinco por cento dos personagens d’As Crônicas de Gelo e Fogo. Deixo para falar de Atreu, os generais rebeldes e Jocasta na Tortura.

Por fim, vou me arriscar a falar de alguns eventos sem dar muitos spoilers. Há a presença de alguns elementos mágicos na trama, sem uma sistematização especifica e com importância crescente a partir da metade do Caçador de Apóstolos. A magia é apresentada aos poucos, e de forma tão vaga que as poucas explicações tornam-se desnecessárias. A magia aparece algumas vezes como o grande Deus Ex Maquina do livro, exatamente por não ser bem sistematizada.

Agora vamos aos spoilers.

A Tortura

O Caçador de Apóstolos

A princípio, a apresentação dos generais rebeldes me desagradou profundamente. Atreu aparece como o herói mais clichê possível, D’Agostini e Oberon são placas de papelão que em momento algum recebem o mínimo de tratamento para que sejam interessantes. Penélope, no entanto, ganha o prêmio como o pior personagem dos dois livros, não bastasse ser o estereótipo mais escrachado de uma bárbara, não passa por nenhum crescimento para livrar-se do estereótipo. Pugna foi uma figura tão indiferente que, até os primeiros flashbacks de Ashcroft, simplesmente esqueci-me da presença dele, talvez seja afinal o melhor dentre os generais.

Minha impressão de Atreu mudou com o transcorrer do livro, a partir do momento em que o Caldela começa a fazer piadas sobre como Atreu tem Síndrome de Barbie, passei a encarar a postura de herói como um elemento importante da psiquê do protagonista. Quando, no farol, Jocasta leva Atreu a chamar seus seguidores de medíocres, percebi o quanto Caldela transformou o clichê no diferencial do personagem. Jocasta foi uma figura interessante. Detestável, mas interessante. Ao menos no transcorrer do primeiro livro, no segundo torna-se ainda mais interessante e passa por um crescimento maior.

Os flashbacks de Ashcroft foram bem usados no Caçador de Apóstolos, dando só um gosto do mundo anterior e uma ideia muito vaga da função do minério divino. A parte final do livro foi bem imprevisível no geral, mas vi aquela luta final chegando de longe. E quanto aos argumentos sobre religião e fanatismo, foram bem colocados, pouco desenvolvidos, mas bem colocados. Havia afinal representantes de céticos e fanáticos nos maiores extremos dos efeitos negativos e positivos de suas posições.

Deus Máquina

Aqui começa o sofrimento. O maior problema: a discussão. Em determinado momento, quando Atreu está em Contago, é dita uma frase semelhante a “Se alguém não conhece a ideia de Deus, não inventa-o por si mesmo”. Discordo, mas não é essa a questão, o problema é que em momento algum é feito um contra-argumento. Diversas vezes ao longo do livro são feitos comentários e jogadas máximas facilmente contestáveis, mas elas são simplesmente aceitas como axiomas e o raciocínio continua sendo construído sobre esses argumentos falhos sem preocupação alguma. Eu realmente gostei da escolha de usar o argumento a la Inception de que “ideias são doenças contagiosas” e o uso do conceito de que deus é um computador, mas o prédio tem alicerces tão fracos que muitas comentários bons perdem a força. Eu não esperava uma distopia ou um debate inteligente quando comprei o Caçador de Apóstolos, ainda não esperava nada muito além de alguns estereótipos bem colocados quando comecei a ler Deus Máquina, mas me decepcionei ao ver um cenário bem construído no primeiro livro perder seu valor crítico por algumas frases niilistas demais. Talvez mais cinquenta páginas de diálogos distribuídas entre os dois livros fossem saudáveis para o discurso.

Os flashbacks e a magia conceitual foram outro problema. A ideia da magia conceitual foi interessante, sua cara de ciência foi mais interessante ainda, mas as explicações sobre seu funcionamento, descoberta e impacto na sociedade foram básicas demais. Não creio que o Caldela nunca tenha lido algo com um sistema de magia complexo e bem desenvolvido e acho plenamente possível encaixar algumas explicações a mais no meio de Deus Máquina. Claro, é interessante ver a magia-ciência sob um ar misterioso, e o próprio Iago avisa bem cedo que jamais chegou a entender plenamente o que é a magia conceitual, mas parece muito trabalho jogado fora quando o livro acaba e ainda não houve sequer uma explicação sobre aquele sistema muito além de que “a magia conceitual lida com conceitos imbuídos a objetos”. Os flashbacks são no geral uma decepção também. O que a princípio parece um cenário interessante, torna-se uma desculpa para cenas de ação serem encaixadas entre os diálogos do Derionde. Ao invés de bons vislumbres da sociedade e filosofias daquele povo, vemos só cenas heroicas do brigadeiro Ashcroft lutando bravamente e mostrando como é um galã tão grande quanto James Bond.

Curiosamente, ainda não entendo como as sociedades do passado puderam se envolver, estudar e dominar a magia conceitual sem criar noção alguma de um sobrenatural. E não falo de criarem Urag, mas qualquer visão de Deus, não há só um modelo de mitologia no mundo.

E para finalizar minhas críticas mais pesadas a Deus Máquina: Contago. Francamente. A Academia não servia como um ideal de sociedade esclarecida o suficiente sem a presença de Contago? Posso até perdoar que Iago não comente sobre como formou-se uma religião da ciência em Contago com maior acidez, afinal ele estava totalmente a favor daquilo tudo, mas supor que as pessoas podem ser descontaminadas da ideia simplesmente se exilando no sanatório? Ou ainda que uma sociedade esclarecida seria subjugada pela religião em poucos dias? Caso Iago dissesse “agora, anos depois, Contago é uma de nossas mais devotas cidades”, ficaria plenamente feliz, mas a velocidade com que Contago caiu foi assustadoramente cômica demais para ser levada a sério.

Só uma última coisa, não exatamente uma crítica. Não há sinal algum de outras sociedades no resto do mundo, embora Iago diga que sua terra é uma ilha pequena. O mundo está restrito demais. Mas talvez haja outro livro no forno da Jambô para explorar isso.

A Sentença

Apesar de minhas críticas ao excesso de ação em momentos em que um pouco mais de desenvolvimento de personagens faria bem e quanto às frases cabalísticas de Deus Máquina, ambos são livros muito bem escritos, divertidos e memoráveis, além de dinâmicos e instigantes.’

Trabalhos excelentes.

Sé pecaram pela pressa em chegar a conclusões e fariam bem em passar por mais um rascunho antes de serem publicados. Há falhas muito óbvias em argumentos e personagens muito pouco caracterizados para sua importância na trama (D’Agostini só ficou marcado como “um cara de bigode”). Ainda assim, li compulsivamente os dois em tempo recorde para livros desse tamanho e densidade. Densidade é outra palavra chave. Como toda boa distopia, Deus Máquina deixa um gosto amargo e um peso na consciência. Ampliando alguns argumentos seria um livro excepcional mesmo entre grandes distopias.

Estão entre os melhores livros de fantasia nacional que li, talvez no topo da lista (terei que pesar todas as falhas da Batalha do Apocalipse). Mas é claro, ainda não concluí a Trilogia da Tormenta ou li Dragões de Éter.



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Lorde Worth

Caçador de Hobbies exóticos, leitor obsessivo e jogador compulsivo.

Comentário sobre Review: O Caçador de Apóstolos & Deus Máquina

  1. Ronaldo Cavalcante @RonaldoCav

    Finalmenteeeeee!!! Imagine minha surpresa quando desesperado, devido a minha demora de leitura das Notícias Subterrâneas da semana passada, encontro finalmente a tão aguardada primeira review. Uhuuuuuulll!!! \o/

    Primeiras considerações:
    Gosto muito do seu jeito de escrever, sempre gostei, por isso sempre acompanho as Notícias Subterrâneas, por isso e pelo óbvio, é claro.
    “Reviews Malignas com Lorde Worth” Gostei muito!! kkkkk já tem meu voto, mantenha.

    “…não gosto de sangue no meu casaco esvoaçante. Meu café, obrigado.” hahahahaha imaginei os pobres livros e o Caldela amarrados e com focinheiras. Mantenha também essa postura nas próximas reviews.

    Outras considerações:
    A parte niilista que vc fala é a parte dos seguidores da falsa voz? Achei meio forçado o jeito que a turba se reunia e coletava mais gente que automaticamente já se tornava adepta e fervorosa, esquecendo valores e regras, deixando ao “Deus dará”…
    (até comecei a pensar em uma possibilidade de um minério divino fomentar essa união, sei lá)

    Para mim Jocasta e Atreu são os melhores, e olha que não costumo gostar dos principais. Até senti muita falta do Atreu quando ele ficou looooongas páginas ausentado. Não sei se é coisa minha mas o Caldela costuma matar ou não trabalhar muito bem os personagens que me afeiçoo. Penelope é genial e tinha tudo para se destacar ali e teve um fim horroroso, D’agostini realmente foi o cara de bigode e Pugna me pareceu um esquisito a la Tex Scorpio Mako da trilogia da Tormenta, inclusive segue o mesmo padrão de citação de nome e sobrenome periodicamente ¬¬

    Os flashbacks me deixavam entendiado muita vezes pela falta de informação sobre a sociedade e sobre a magia conceitual, como vc mesmo citou. Ashcroft é um galã muito do chato e entediante, isso sim, aquele outro agente travesti, transexual,transmorfo, não sei, aqueeeeele sim eu achei muito interessante e divertido.

    Hmmmm acho que vou discordar de vc no ponto de Contago, Sr. Worth. lembra que eles tinham o maior cuidado em nem mesmo mencionar Deus dentro da cidade? É como se a palavra ou conceito dela sendo assimilado desencadeasse a doença em si, que “está no ar” desde muito tempo, afinal de contas a máquina ainda existe e está operante. A doença da religião está ativa, a igreja que tem o papel de abrir a ferida para que “a bacteria santa” entre. Fui claro?
    Mas isso não elimina seu argumento de um outro pensamento sobre uma força maior… isso ele deixou passar mesmo.

    Bem… como esperado fiquei muito satisfeito com a review, muito mesmo. Vc levanta pontos muito pertinentes, pontos que valem a pena discutir mesmo e pensar sobre. Muitos deles me questionei na hora, mas me deixei levar pela leitura prazerosa dos livros desse cara… outros pontos somente pensei agora que li. Espero pelas outras e,a propósito, qual será? Trilogia da tormenta ou O Nome do Vento?

    Parabéns pela ótima review, sr. Worth.

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