O que Superman fez por você?

Escrito por: | em 11/12/2012 | Adicionar Comentário |

Hoje saiu o segundo trailer do vindouro filme Homem de Aço. Em tempos de anti-heróis e heróis com vários tons de cinza (não, não estou me referindo ao livro da moda), você pode acabar dizendo: Ok, o que tenho a ver com isso? Superman é ultrapassado, é superestimado, é irreal.

Deixe de lado, por um momento, seus preconceitos pelo personagem, que podem incluir a cor de seu uniforme, a ordem em que veste suas roupas de baixo, seu indisfarçável alter ego, ou mesmo as burrices editoriais da DC Comics. Leia de coração aberto e no final você pode acabar respeitando ele assim como eu…

Há alguns anos ouvi duas verdades que naquele momento pareciam completamente exageradas, mas que a experiência me mostrou como corretas: 1 – Todo romance é uma releitura dos dois livros mais antigos preservados do mundo: A Ilíada e a Odisseia ; 2 – Todo herói moderno é uma releitura de Superman.

Antes de rasgar suas vestes, arrancar seus cabelos e gritar: herege! Pense no assunto, sério. Prometo tocar na primeira afirmação em outra oportunidade, hoje falarei do último filho de Krypton e seu legado para a humanidade. E por que não começar pela origem do herói? Grant Morrison a resumiu em quatro sentenças: Planeta condenado – Cientistas em desespero – Última esperança – Casal bondoso.

Que outros personagens você conhece que são órfãos, ou não tem um dos pais? Citarei só os mais conhecidos:

DC: Batman, Lanterna Verde, Mulher-Maravilha, Aquaman ; Marvel: Homem-Aranha, Homem de Ferro, Capitão America, Hulk, Ciclope, Wolverine ; Mangá: Goku (Dragon Ball), Cavaleiros do Zodíaco, Kenshin (Samurai X), Naruto, Yusuke (Yu Yu Hakusho)…

E a lista continua. Estes são apenas exemplos dentro do mundo das artes gráficas, mas extrapole para a literatura e cinema e verá outros influenciados por ele. Os primeiros nomes que me vêm à mente de cada uma dessas mídias é Harry Potter e James Bond.

Veja bem, não estou dizendo que Kal-El foi o primeiro herói órfão, mas seria a referência moderna para este tipo de herói. Também não estou insinuando que quando J.K. Rowling criou seu famoso protagonista ela estava com uma HQ ao lado, não, mas as influências estão no ar, você não precisa consumir um produto para copiá-lo, basta consumir outro que consumiu o primeiro. Por exemplo, muitos copiam a Ilíada e Odisseia sem nunca tê-las lido. Quer ver o George RR Martin te surpreender mais uma vez? Problema desencadeador do romance: Rapto de uma beldade (Helena – Ilíada/Lyanna – ASOIAF), percebeu a semelhança entre os nomes?

Criado em 1938, Superman foi o primeiro super-herói e influenciaria TODOS os outros após ele, em cada um deles há um quê do Homem do Amanhã. Há, no mundo da ficção, um antes e um após Superman. Produto da mente de dois judeus (Shuster e Siegel), filhos de imigrantes, numa época em que esse povo ainda não tinha um lugar definido na sociedade americana, o Homem de Aço foi um instrumento para mostrar que mesmo que sua origem ou raça seja outra, “lar é o lugar onde está seu coração”, é o lugar que você aprendeu a amar, onde foi criado; mostrou que uma criança adotada pode ser bem-sucedida como qualquer outra; mostrou que a genética não tem nenhuma importância desde que a sua criação seja correta ou que você se faça correto.

Duvida? O histórico de cartas enviadas à DC ao longo dos anos prova tudo isso, desde a criança que tinha o pai encarcerado, segregada pelos colegas, e provou que isso não a fazia pior ou melhor que ninguém; passando por todas as pessoas que decidiram fazer valer a justiça se tornando policiais, advogados e etc.; ou até mesmo os diversos casos de suicídio evitados. Um exemplo recente e tocante ocorreu após a história Grandes Astros Superman, onde em uma cena, ele salva uma menina que iria se jogar do alto de um prédio. Algum tempo depois, foi postado na internet o depoimento de uma mulher que decidiu não se matar por conta dessa história, no final ela diz: “Agora estou na faculdade, a melhor da minha classe. Eu tenho amigos. Eu tenho uma vida. E não me importa se ele é um personagem fictício de quadrinhos. Ele continua tendo salvado minha vida.” link

E não param por aí suas façanhas da vida real. Superman foi o maior responsável pela derrubada da Ku Klux Klan. Nos anos 60 um homem que lutava pelos direitos humanos se infiltrou na organização e descobriu tudo sobre seus membros e suas cerimônias ridículas. A forma de desmascará-los para a população foi fazendo com que o super-herói, através de seu programa rádio, popular na época, prendesse seus membros e contasse em rede nacional o que eles faziam. Poucos anos depois foram desmantelados.

Então os menos idealistas podem perguntar: por que ele não acaba com a fome no mundo? Por que não caça terroristas? Ora, por que não governa a Terra? Tudo isso é respondível e já foi abordado diversas vezes na cronologia do herói, “Paz na Terra”, “Pelo Amanhã”, “Entre a Foice e o Martelo”, são algumas das histórias que abordam esses e outros temas. Mas acho que a maior resposta está numa edição que li dos anos 70, em um encadernado que resgatava as maiores histórias do herói. Nela, os Guardiões incutem na cabeça dele que ao ficar na Terra ele impede que ela siga seu curso natural, que evolua, que aprenda com seus erros e seja mais forte. Após ponderar sobre o assunto, ele entende que deve sim continuar ajudando seu lar, mas dará chance para a sociedade aprender com seus erros e se curar, como um antibiótico que impede que bactérias se proliferem, se excedam, mas não as mata, permitindo ao corpo criar imunidade naturalmente.

Poderia me alongar mais sobre suas influências ou sobre o que ele representa, mas com medo de fazer um texto imenso, vou comentar apenas um trecho de Grant Morrison:

“Somos todos super-homens em nossas próprias aventuras, temos nossas próprias fortalezas da solidão para onde nos retiramos, temos nossas próprias coleções de coisas especiais que valorizamos, nossos próprios super animais de estimação, nossas próprias cidade engarrafadas que nos sentimos culpados por negligenciar. Temos os nossos próprios colegas e rivais e Bizarros emaranhados emocionais e amorais que temos que lidar.”

Superman falha como todos nós, não conseguiu salvar a cidade de Kandor de ser engarrafada por um de seus vilões, um paralelo àquele momento de vergonha em nossas vidas que volta e meia nos atormenta, mas acabou nos tornando quem somos. Também há a negligência por não procurar formas de reverter o problema, assim como os deveres que deixamos para depois. Quando a barra pesa nos entocamos na Fortaleza da Solidão assim como ele e esperamos voltar melhores. Lá estão nossas coleções e coisas especiais que muitos ao redor não entendem, mas são um marco do caminho que percorremos. Sofremos muito por perder entes queridos (Crise nas Infinitas Terras), ou não chegar a tempo de trocar uma última palavra com eles (Grandes Astros), mesmo que seja nosso super animal de estimação.

Superman não é meu herói favorito, na verdade não está nem na lista dos cinco primeiros, mas é o maior herói de todos. E pasmem, talvez o mais humano.



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Renan MacSan

Estudante de Medicina, leitor de longa data, jogador de games e amante de HQs. Tem como livro favorito O Nome da Rosa e sonha em terminar de escrever o seu. Leitura atual: Dança dos Dragões ; e Londres - O Romance.