Lord of the Samples: The Waking Engine (David Edison)

Escrito por: | em 08/03/2014 | Adicionar Comentário |

The Waking Engine

Apesar da falta de livros nas últimas Notícias Subterrâneas, creio ter dito que ao menos dois deles dariam boas reviews de samples. Aproveitando este começo de semana pós-carnaval (o verdadeiro fim das minhas férias, certo?), eis minha análise da curta sample de The Waking Enginede David Edison, disponível em ebook para kindle e kobo.

Em primeiro lugar, admito que errei. Não me levem a mal, quero deixar bem clara aqui a distinção entre analisar um livro e analisar uma amostra de um livro. Analisar uma sample não é uma tarefa de apontar como foram os personagens, enredo, ambientação, escrita, mensagens et cetera et cetera. É, sim, uma tentativa de prever como serão esses aspectos no resto da obra. Faço inferências e digo até que ponto acho que aquelas poucas páginas podem ser apreciadas sem o resto da pilha de papel que as seguiria, ou até que ponto essa leitura nos leva a querer ler o resto.

The Waking Engine parece ser um livro interessante? Bastante. The Waking Engine tem uma boa sample? Não.

Voltando ao básico para falar do livro em si, The Waking Engine é o romance de estreia de David Edison e o início de uma trilogia de fantasia épica e blá blá blá. A premissa é interessante: the City Unspoken é o lugar aonde todos eventualmente vão para escapar ao ciclo de morte e renascimento e atingir a Verdadeira Morte. Sim, é fantasia épica sem dragões e elfos, é fantasia urbana sem o mundo secreto por trás do nosso. É, em teoria, a história profunda e filosófica de uma cidade entre mundos, onde se reúnem todas as formas possíveis de existência entre a vida e o esquecimento. É corajoso, uma exploração de um tema carente de obras de qualidade. Eu gosto da premissa, gosto tanto que já escrevi sobre isso eu mesmo, e acho que as ideias que David Edison coloca em seu livro são boas – já o estilo…

A primeira cena é um prólogo em que uma… entidade… está andando em círculos em uma… sala. É bom, deixa claro que a ideia é falar de coisas muito mais vastas do que o típico da fantasia épica. Não é uma representação de bem ou mal, de magia exercida por mãos humanas, de heróis e profecias; o que temos nessas páginas tenta ir além disso e falar de conceitos muito primais, como a perda, do ponto de vista de algo que é só minimamente antropomórfico.

Em seguida, seremos apresentados ao protagonista, o ser humano que morreu e acordou na cidade. Cooper, o pobre infeliz, acorda sobre um morro de mortos, sendo arrastado por um brutamontes cinzento e por uma figura feminina muito descontente e mal-humorada. No começo, me impressionei por não começarmos pela morte dele, que na teoria dá ao leitor um tempo mínimo para conhecer o personagem em seu ambiente natural antes de arrancá-lo de sua existência pequena e infeliz. Pois bem, o pobre coitado morreu de forma tão simples que duas frases de flashback resolvem a pendência. Uma morte tão normal dá um belo clima de… vida real? Mas ao mesmo tempo prejudica a narrativa: por toda a duração da sample, Cooper é só o bobão babão em choque por ter morrido. Para suavizar esse efeito, entram em cena os sidekicks Asher (porque ele é cinza, claro) e Sesstri (ela é tão babaca que parece vir de WoT).

Na cena seguinte, Cooper acorda no apartamento de Sesstri ainda em choque e começa a ouvir que morreu e afins. É um fluxo decente de informação, mas só depois de uma descrição da cidade-planeta épica em toda sua variedade e essência alienígena. Parece bem claro que Cooper será a parte mais dispensável e desinteressante da narrativa, tudo que temos são longas descrições da cidade e até as explicações que temos aqui são mais sobre como a morte afeta a cidade do que como afeta os seres que a habitam. Outro corte, e aqui um que me deixa confuso. Pareceu-me a princípio que o corte foi uma tentativa de dar ao leitor tempo de absorver as informações da explicação por uma ampla panorâmica de um bairro qualquer. Agora, creio que a explicação é que foi o corte para dar tempo ao leitor de imaginar a cena entre uma descrição e outra. O que se segue é Cooper em choque, descrição de arredores, Cooper em choque, descrição de arredores, Cooper em choque, prostituta imortal (estava esperando ela aparecer), Cooper sai do choque e (agora sim) tem um chilique.

Se o foco disso fosse de fato o desenvolvimento dos personagens no fim da linha, esse choque teria vindo vários parágrafos antes. Então há um pequeno duelo filosófico (forçando muito o uso da palavra) entre Asher e Cooper que realmente só reitera as primeiras coisas que todos pensamos quando lemos a sinopse. Só um pouco de filosofia da morte quando não há morte. Sim, temos que passar pelo básico para expandir a discussão depois, mas o que me impressiona é que a história só chegou até aí. A sample acaba bem aí. Ela foi curta, muito curta. Se o livro tivesse 1000 páginas, seria natural que a sample dissesse pouca coisa, mas ela seria maior. Curioso, fui conferir o tamanho do livro e me deparei com “400 pages”. É pouco. É realmente pouco. E o recheio foi de descrições de como tudo é exótico e além da nossa imaginação.

O que posso inferir disso tudo? O enredo será dispensável, os personagens serão dispensáveis e as discussões sobre a morte-sem-a-morte serão muitas, mas só no que toca conceitos muito gerais e não como cada personalidade distinta lidaria com isso. É provável que a série tenha sido pensada como um só livro em três atos e não como três livros com arcos próprios, o que resume o meu maior medo: que o livro não se sustente sem o resto da série. A sample diz pouco e faz pouco pela história, mas ainda assim foi bem corrida; se tivéssemos um livro só, provavelmente teríamos uma sample com mais informação… E teríamos qualidade no desenvolvimento dessa informação? Arrisco dizer que não.

Reafirmo: gosto da premissa. Considero essa uma rota corajosa para um novo escritor de fantasia. Entretanto, David Edison parece querer adaptar suas ideias mais arrojadas ao ritmo da fantasia altamente comercial, com capítulos curtos e ação rápida. Essa introdução não carecia de tantos cortes, com uma só cena no apartamento da Sesstri – cheia de discussão e desenvolvimento da reação do próprio Cooper – o resultado talvez fosse mais satisfatório. As ideias por trás do livro são ótimas (e, por sinal, completamente distintas da que eu usei para escrever sobre o mesmo tema), eu leria o resto dele só para vê-las crescendo, enquanto a história que se vale delas parece indecisa e covarde.

De qualquer forma, amanhã postarei um pequeno especial sobre uma sample que, creio eu, será mais instigante que esta.



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Lorde Worth

Caçador de Hobbies exóticos, leitor obsessivo e jogador compulsivo.

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