Escrevendo: Sangue e Trovão Capítulo 1

Escrito por: | em 04/03/2016 | Adicionar Comentário |

Muito bem, semana passada tivemos nossa introdução, agora vamos para o nosso primeiro capítulo.

Mornov I

– Você não deve esquecer essa cena – Falou o homem careca para o rapaz atrás dele – Isso vai mudar nossa vida.

O raiar do sol assomava sobre o porto, iluminando sinistramente os cadáveres dos guardas portuários, o sangue escuro das poças assumia uma coloração quase laranja diante da incidência direta da luz solar.

Nove corpos, braços amarrados para trás e gargantas cortadas indicavam execuções, e as poças de sangue no chão, espalhadas entre os paralelepípedos e já coagulando, mostrava que as mortes haviam ocorrido à noite. Nuvens de moscas que circulavam no cais já empesteavam os corpos, acostumadas a pararem tudo que faziam para esquadrinhar um corpo novo.  Aves carniceiras observavam de longe com olhares famintos esperando que as pessoas se afastassem e deixassem que elas fizessem seu trabalho.

O homem careca, moreno, magro e alto estava quase pisando em uma das poças de sangue enquanto encarava pensativamente os cadáveres. Seu assistente se postava atrás dele com intensa atenção à reação do homem careca, e diversos metros atrás do assistente quase vinte guardas do porto afastavam irritadamente uma multidão que matracava e especulava o que poderia ter acontecido neste ponto do porto, onde os navios militares atracavam. A imobilidade do homem careca e de seu assistente quase compunha uma pintura, dos dois parados no Pier, próximo a enorme torre conhecida como o Olho Direito, que guardava um dos lados da Baía de Hespéria.

Um homem acima do peso, de cabelos brancos, uniforme vermelho escuro e preto de oficial da Guarda Citadina de Hespéria, usando óculos de lentes estreitas e retangulares, veio em um passo apressado até o homem careca.

– Senhor ilustre Ministro Mornov, mil desculpas por deixa-lo esperando, deixei avisado a um de meus homens que me chamasse imediatamente quando o senhor aparecesse, enquanto eu preenchia os relatórios junto com o Juiz Caçador que acabou de sair daqui, mas meu subordinado ficou ocupado com a multidão de curiosos – O oficial da guarda falou disparando de uma vez e ofegando, se dirigindo ao homem careca.

O Ministro bateu três vezes na fivela do cinto com a mão esquerda e três com a mão direita, depois olhou para o sol, para os cadáveres, depois para o sol e para os cadáveres novamente, ele passava a mão pensativamente sobre o cabo de madeira escura da pistola que trazia ao cinto, um cabo que já estava gasto de tanto que a luva de couro lhe roçava.

– Não tem importância Capitão Solker, tive tempo de examinar as vítimas enquanto você não chegava – retrucou o Ministro sem desviar a visão dos guardas mortos – Fico feliz que tenha mandado me chamar, como Ministro da Defesa e Desenvolvimento, a aparente deserção de uma Legião Voadora inteira é uma prioridade. Diga-me claramente: O Basilísco estava nessa exata doca?

– Sim senhor – respondeu Solker ainda ofegando um pouco – Os Praesidium Volantis atracam apenas nessa doca e na 28, que está vazia. Ele se foi senhor, e massacraram os meus guardas da 27. Toda a 6ª legião se foi. Eles foram em direção às Ilhas segundo as poucas testemunhas que viram o que aconteceu através das frestas das janelas.

– Tudo bem Capitão, me deixe sozinho agora, lerei o que tiver pra descrever em seu relatório – O Ministro falou, o que fez com que o Capitão Solker saísse apressado do local, resmungando baixo demais para alguém notar.

– O Tormenta está fora de operação Urik? – Perguntou o Ministro

– Sim Senhor Mornov. Eu ainda estou supervisionando suas melhorias no Hangar 18 – Respondeu o assistente, um homem baixo, de cabelos castanhos cortados rentes, ao estilo militar e pele cor de oliva – Mas temos um Praesidium leve, da classe príncipe, em condições de operação, ainda não foi testado, mas está teoricamente funcional. Posso ordenar que a terceira pegue o máximo que puderem de armamentos no Tormenta e tripulem a nave nova para perseguirem o Basilísco.

Mornov bateu três vezes na fivela do cinto com a mão esquerda e depois três vezes com a mão direita, voltando a esfregar a mão sobre o cabo da pistola logo depois.

– Não. Não vou enviar uma nave menor e que não foi testada para interceptar o Basilísco, ele acabou de receber melhorias e a Sexta Legião Voadora está descansada, a Terceira atracou o Tormenta à pouco tempo, não tiveram nem tempo de remendar seus uniformes. Vou enviar uma mensagem para o Comandante Viktor e a Segunda Legião Voadora para que saiam de Mukk e encontrem o Basilísco em alto mar com o Punho de Aureus, antes que eles se enfiem nas Ilhas – Mornov suspirou, depois olhou para o sol, para as docas, para o sol novamente e para as docas em seguida, depois deu meia volta e saiu em marcha acelerada em direção à Via Markov, seu longo sobretudo cinza escuro com botões de prata esvoaçava, assim como o de Urik, que vinha em seu encalço – Venha Urik. Temos de falar com o Imperador imediatamente.

Eles andaram rapidamente pela cidade escura que acordava, passando em meio aos prédios cheios linhas verticais desenhadas e feitos cuidadosamente com tijolos cinza com divisórias quase invisíveis, fazendo a cidade parecer constantemente coberta em cinzas. Uma observação que os colonizados pelo império gostavam de fazer era que a capital do Império, Hespéria, ficava mais cinza com cada cidade que os Imperiais queimavam. Espirais negras subiam aos céus, saindo das chaminés dos pequenos complexos de apartamentos, a moradia mais comum em Hespéria. As luzes dos postes elétricos em cada esquina já ficavam fracas diante da luz do dia que cobria a cidade, e em breve elas seriam apagadas.

– Cinco anos que Atyon é o maior herói vivo do Império. Cinco anos de crescimento pessoal desde que ele despachou pessoalmente o Capitão dos Aquilários e virou o rumo da batalha do Pescoço de Aureus com o Basilísco, mesmo gravemente ferido. – Mornov mais falava consigo mesmo em voz alta e deixava o assistente participar de sua conversa consigo mesmo – O que levaria? O que levaria Atyon a matar nove guardas e fugir com uma legião tripulando uma das armas mais letais do Império?

– Bom, certamente a morte dos guardas foi para ganhar tempo na escapada com o Basilísco. Já o roubo do Praesidium, será que ele planeja um golpe de estado senhor Mornov? Talvez arregimentar seguidores para atacar o Império? – Urik respondeu com questionamentos enquanto apertava o passo para acompanhar as pernas longas de Mornov que batiam as botas de sola de madeira rapidamente sobre os paralelepípedos da Via Markov enquanto a subiam.

– Se ele pretendesse se tornar Imperador deveria continuar aqui. Atyon é o melhor Lorde General que o Império já teve, um dos melhores espadachins, um herói com dezenas de medalhas e feitos, e um homem muito popular entre o povo e seus homens. Falkem já é um Imperador idoso, não prevejo nem mais uma década de vida e o Príncipe Valkorem não tem desejo nem nome para se candidatar. Atyon com certeza seria eleito o próximo Imperador pelo Legado da Orquídea Negra, é o que visionamos para ele desde a Guerra do Grifo Tirano – Mornov praticamente voava pelas ruas com longas passadas aceleradas. As pessoas saindo de seu caminho mesmo não havendo nenhum guarda indo na frente, pois sua altura, uniforme e distintivo de prata anunciavam com pompa quem vinha pela rua, e a maré de pessoas abria caminho como se um navio descontrolado viesse contra eles.

– Talvez ele não desejasse esperar mais uma década senhor – Urik quase corria para acompanhar o Ministro – Muitos estão descontentes com o Imperador atual. Ou talvez ele temesse perder o favoritismo para alguém mais impressionante. Eu sempre achei que o senhor seria o próximo Imperador senhor Mornov.

– Não seja tolo Urik, eu sou um velho cheio de manias, nunca seria um Imperador descente – Mornov chacoalhava a cabeça, como que enfatizasse o que tinha dito – Temos de ficar atentos, esta é uma situação de alerta máximo. Realoque os recursos dos projetos menores e triviais para o projeto Encouraçado e a atualização dos Praesidiuns antigos. Anuncie recrutamento voluntário e depois obrigatório até conseguirmos pelo menos trinta mil novos legionários, quero treinamento completo acelerado para todos eles. Envie uma mensagem para o Capitão Marek e a Quarta Legião Alada deixarem Torun imediatamente, quero atualizar e renovar as armas do Martelo do Tribunal assim que eles chegarem a Hespéria. Torun deve lacrar os portões blindados e aguardar ordens minhas. Envie ordens para Grisha, Kovel e Valta, para que se mantenham atentos em suas províncias, tanto com a Coorte como para legionários Imperiais hostis. Mande mensagens para nossos aliados em Selene e Ifakor também. Todas as legiões das ilhas devem ser informadas de Atyon e da Sexta, ele foi considerado um traidor e fugitivo, e deve ser retornado para a capital para um julgamento público diante do Tribunal, qualquer homem que o defender estará na mesma situação.

– Devemos movimentar legiões sem autorização do Imperador? – Urik questionou

– Sim, ele provavelmente vai dar as mesmas ordens, só estou adiantando-as.

Os prédios passavam rapidamente ao redor deles em sua caminhada acelerada, os grandes prédios quadrados e retangulares, enormes caixas cinza de telhados baixos, triangulares e avermelhados, próximos aos tetos sempre haviam decorações com formas geométricas, muito populares no Império. O modelo arquitetônico preferido dos Imperiais, prático e bruto. Todos os apartamentos tinham sacadas de ferro fundido, e na maioria delas, moradores saíam para pendurar roupas recém-lavadas ou retirar roupas secas em seus varais que cruzavam sobre as ruas ou se penduravam ao redor da sacada, tornando as roupas de baixo a principal bandeira hasteada em Hespéria.

Eles andavam rapidamente e já haviam deixado a área Portuária de Hespéria, a capital do Império Aéllico. Mornov e Urik avançavam já próximos ao centro da capital, passando pela praça central ladeada por construções austeras, monumentais, cinzentas e repletas de estátuas sombrias de legionários e juízes, todos com físico impressionante e expressões de grande reflexão e esforço, independente do que estivessem fazendo, o que era um grande contraste com o mercado que era realizado todos os dias na praça, repleto de barracas coloridas, que iam começar mais um dia de vendas e gritos animados. Andavam em direção ao complexo de prédios ao redor do Palácio do Imperador ,quando ouviram uma voz alta e estridente gritar ao centro da praça, era uma Arauta do Informante, a principal publicação do Sindicato da Informação, uma mulher baixa e de cabelos curtos e escuros, gritando a plenos pulmões algo que fez Mornov estalar o dedo contra a fivela as habituais seis vezes, três com cada mão. Ela estava cercada por uma pequena multidão que ia crescendo e pisoteando a fina camada de lama escura formada entre os paralelepípedos pela humidade da noite e o pó da praça central.

– O Príncipe está morto e o Imperador ferido!  O Lorde General Atyon é o assassino! Leiam tudo na edição do Informante de hoje! O Lorde General Atyon matou o Príncipe Valkorem, único filho do Imperador Falkem. Toda a história no Informante de hoje!

– Urik! – Rosnou Mornov com os dentes cerrados enquanto apontava a mulher

– Sim senhor – Gritou Urik enquanto retirava a longa pistola de aço negro escovado e cabo de madeira escura de Selene do coldre de couro avermelhado e macio, típico das Ilhas. Ele apontou a pistola para o alto e deu um tiro, fazendo um estrondo e uma nuvem de fogo que fez com que todos prestassem atenção nele. Todos observaram Urik em silêncio enquanto ele retirava a bateria da pistola, tirava outra do cinturão de couro negro e inseria na pistola e depois inseria um longo projétil de chumbo, parecido com um prego, em outra câmara da arma. Um Juiz Caçador veio ver quem havia disparado uma arma em plena Praça dos Ministérios, mas se deteve e ficou em silêncio mortal assim como a multidão, não ousando interferir com os membros do Ministério da Defesa. Então Urik avançou e a multidão saia do caminho assim que avistava o uniforme do Ministério da Defesa. O assistente do ministro agarrou os braços da arauta que foi arrastada para fora da multidão em direção à Mornov enquanto gritava múltiplos protestos, mas ninguém interferiu, e na verdade as pessoas começaram a se dispersar, sempre evitando a área onde eles estavam, formando uma espécie de bolha de ausência ao redor do Ministro, seu assistente e a Arauta.

– Você não pode fazer isso! Eu sou membro do Sindicato da Informação, empregada do Informante. Tenho autorização para anúncios matinais!

– Curioso você estar anunciando uma edição que nem saiu ainda. A notícia é tão boa que não pode esperar? – Quando disse isso Mornov viu um esboço de sorriso no rosto da arauta que logo se dissolveu com seu olhar mais austero – O que sabe sobre a notícia que está dando?

– Você pode ler tudo na edição do Informante senhor Ministro, sairá em menos de uma hora, as prensas devem estar fervendo – Disse a mulher de cabelos curtos sorrindo com sarcasmo. Mas seu sorriso se transformou em um esgar de dor quando Urik torceu seu punho para trás.

– Isso não é necessário Urik – Mornov agitou a mão e Urik soltou o braço da Arauta, que esfregou o punho com sua mão esquerda – Você sabe quem eu sou e o que posso fazer, então você sabe quando irei te liberar.

A mulher olhou sombriamente para Mornov, depois olhou para Urik e voltou a olhar para o ministro antes de falar.

– Um funcionário do palácio que é um antigo informante nos passou a informação. O palácio está trancado desde a meia noite, mas ele conseguiu escapar por uma antiga saída de serviço há muito trancada – Ela falou esfregando o pulso enfaticamente, com ressentimento em seus olhos – O Príncipe Valkorem e o Imperador Falkem foram esfaqueados pelo Lorde General Atyon em uma câmara na biblioteca na noite anterior, o Imperador sobreviveu. É tudo o que sei.

Mornov a dispensou com um movimento de cabeça e a Informante correu para fora do pátio, ele sabia que ela voltaria para o Sindicato da Informação para tentar incluir no circular de hoje o abuso de autoridade que sofrera, se não hoje com certeza seria publicado amanhã. Mas ele não tinha tempo para lidar com essas pequenezas, pois sabia que o Império estava em uma situação de risco.

De uma parte da praça Mornov podia ver as docas, mais  baixa que o resto da cidade, cobertas pelo céu laranja do amanhecer. Os imensos cais estava lotado, repletos de navios, tanto à vela, estes vindos das Mil Ilhas, quanto com rodas de propulsão elétricas, os Imperiais. A enorme estação de trem das Docas estava abarrotada de pessoas, tanto passageiros embarcando e desembarcando, como estivadores descarregando dos navios bens trazidos das Ilhas para serem levados pela imensa estrada de ferro até as outras cidades do Império Aéllico. A luz elétrica dos postes dava um ar estranho para a cidade quando o sol já despontava no horizonte, mas em breve elas seriam desligadas. Mornov também olhou para a imensa torre que estava terminando de ser construída próxima ao Ministério, ela seria a primeira Doca Aérea do Império, seu orgulho e projeto de estimação.

Tudo passou rápido por sua cabeça, tudo que o Império era, sua idade quase milenar, suas grandes invenções e expansões, sua poderosa religião, seu poder inato inestimável. E também pensou no que o Império ainda podia ser, a glória dos homens ou o caos da ruína.

– Urik! Vá para o Ministério e ponha em ordem tudo que eu lhe disse. Eu irei até o palácio para ver o Imperador.

O Jovem obedeceu sem responder, batendo continência e girando sobre os calcanhares, disparando entre a multidão para chegar ao prédio do ministério.

O Ministro podia ser o único que capaz de salvar o Império.

Mornov se apressou para o Palácio, e aquela manhã de leve neblina estava especialmente obscura em uma cidade já acostumada com neblina, como se as lâmpadas elétricas dos postes tremeluzissem ante a escuridão da noite que se esvaia diante do sol da manhã, mas ameaçava voltar com um negrume avassalador da próxima vez. Ele passou a passos largos pelos prédios austeros do distrito imperial, o coração da capital do Império Aéllico.

O Palácio Imperial fazia de qualquer outro prédio do continente um anão. Assomando em arcos escuros, repleto de pináculos e pontes dentro de sua própria estrutura intrincada. Fora do Império ele era conhecido como Palácio Negro, o lar do déspota que subjugava todos os povos ao redor do Império Aéllico, mas dentro ele era a Joia do Império.

Mornov suspirou ante a escadaria que levava até os portais do palácio, depois subiu rapidamente, sempre sem pisar nas intersecções do piso dos degraus. Ao chegar ao alto, passou pela dezena de guardas do portão sem ser incomodado. O Ministro andou rapidamente pelo palácio, se desviando de servos que corriam atarefados como se o palácio estivesse em chamas. Sem dúvida havia sido uma noite agitada. Ele marchou por saguões e corredores acarpetados e repletos de tapeçarias, pinturas e armas trazidas de inúmeras culturas como troféus do Império.

Ao chegar à biblioteca, ele logo se dirigiu para a câmara cheia de guardas na entrada, novamente nenhuma palavra da parte deles quando ele passou, apenas continências. Dentro da câmara haviam móveis tombados, e grandes manchas de sangue se espalhavam pelo carpete e respingavam sobre as lombadas de couro de alguns dos livros. Perto da maior mancha duas figuras se destacavam, ambas de armadura. Uma era baixa com cabelos castanhos curtos e tatuagens de escrituras sagradas que lhe cobriam toda a face, fios emborrachados lhe saíam das ombreiras e passavam pela extensão da parte de trás dos braços, até as manoplas, carregava uma longa espada e uma pistola de trilho no cinturão, era um Juiz Caçador, este homem fumava um charuto curto, e seus olhos brilhavam refletindo a brasa quando ele aspirava a fumaça. O outro era um homem alto, careca e de barba negra, com uma armadura isolante sem o elmo, o que mostrava as gotas de suor escorrendo pela cabeça, este falava:

– Ele estava em uma posição indigna para ser visto, seus ferimentos foram horríveis. Não podia deixar o corpo espalhado daquele jeito – O homem barbado falava de forma exasperada, mas a resposta do Juiz Caçador foi um grunhido insatisfeito enquanto ele observava as manchas de sangue nos livros.

– Você realmente fodeu com minha cena do crime Ivar. Qualquer outro Juiz Caçador lamberia suas botas com falso respeito, mas eu acho que o senhor é um grande filho da puta que só dificultou meu trabalho – O Juiz falou baixo e irritado.

– Capitão Ivar – Mornov cumprimentou o homem barbado com a mão fechada sobre o peito. Quando o Juiz Caçador se virou, o ministro pôde ler o nome dele em uma pequena placa de metal gravada, rebitada do lado esquerdo do peitoral da armadura – Meretíssimo Zagarf – Falou logo em seguida.

– Senhor Ministro Mornov – falaram ambos quase em uníssono.

– Capitão Ivar, venho saber da situação presente– Mornov olhou diretamente nos olhos azuis claros de Ivar, uma cor incomum no Império e típica das Ilhas, e o homem não hesitou em disparar à falar.

– Na noite de ontem o Imperador e o Príncipe Valkorem se encontravam nesta câmara quando o Lorde General Atyon chegou para uma audiência privada com ambos.  Ele imediatamente sacou seu punhal e esfaqueou o Príncipe no pescoço por duas vezes. O Imperador Falkem estupefato se atirou sobre ele para impedi-lo, lutando com Atyon, mas este era muito jovem e forte, subjugando o Imperador e o esfaqueando na barriga antes de sair do palácio e fugir em direção ao porto. O Príncipe morreu na hora, o Imperador está bem, o Sartrix Palaciano disse que ele está fora de perigo. O punhal de Atyon está bem ali no chão.

– Nenhum guarda? O Capitão da Guarda Imperial deveria saber – Mornov interpelou com a voz fria, o que fez Ivar enrubescer ligeiramente.

– Era uma reunião secreta senhor, eu não tinha conhecimento. Eu achava que o Imperador e seu filho estivessem em seus aposentos pessoais, mas eles haviam saído e ordenado aos guardas que ficassem em seus postos. E ninguém impede Generais de entrar e sair do Palácio. E você sabe que aquela merda da biblioteca é à prova de som – Ivar respondeu com certa irritação ao fundo de sua voz.

Mornov se moveu até as prateleiras cobertas de livros raros e edições únicas, agora cobertas também do líquido vermelho, ferroso e arterial que corria nas veias do Príncipe Valkorem. Ele passou o dedo sobre o sangue que secava, o que fez o Juiz Caçador grunhir com raiva contida. Em seguida ele olhou o punhal ensanguentado caído no chão, uma arma padrão, típica de qualquer legionário ou oficial, afiado como uma navalha e coberto de vermelhidão.

– Suponho que demoraram a encontrar o Imperador? – Indagou Mornov

Ivar chacoalhou a cabeça confirmando – Ele foi achado pelo guarda que faz as rondas do palácio, já era o meio da madrugada, estava abraçado ao Príncipe morto, desmaiado enquanto tentava estancar sua barriga com uma mão e a garganta de seu filho com a outra. Além de ferido ele está muito fragilizado. Depois que o Sartrix lhe costurou e lhe fez uma transfusão de sangue, ele chegou a acordar, mas não disse nada ainda e está descansando agora.

– Muito bem – Falou Mornov – Agora minha preocupação é com o Império. Este acontecimento pode rapidamente virar uma guerra civil. O homem mais popular do império acabou de cometer um dos maiores crimes já registrados. Temos um problema e tanto em nossas mãos.

– O que faremos para impedir que isso aconteça senhor Ministro? – O Juiz Caçador Zagarf questionou com sua voz baixa, quase um sussurro enervante.

– Por enquanto vocês não farão nada. Mas eu tenho muito a fazer. Eu vou torcer pela paz enquanto me preparo para a guerra – O Ministro falou e deu três batidas no cinto com a mão direita e três com a esquerda.

Mornov se colocou em movimento novamente e dessa vez ia para o os aposentos do Imperador, que não estavam muito longe da biblioteca imperial. Mais tapeçarias e quadros com imagens de batalhas, o Palácio era uma homenagem constante aos triunfos do Império.

Quando chegou à porta do Imperador, nada menos que trinta membros da Guarda Imperial aguardavam do lado de fora, todos com armaduras isolantes escuras e espadas elétricas.

– Senhor Ministro – Um dos guardas se pôs à frente dele, a voz abafada pela viseira completa do elmo blindado – O Imperador descansa e se recupera. Não é recomendado importuná-lo agora.

– Você vai me impedir se eu tentar entrar? – Mornov era mais alto que o Guarda Imperial

– Não senhor- O Guarda fez uma reverência com a cabeça e saiu do caminho.

Mornov entrou no quarto escuro por cortinas pesadas nas belas janelas de vidro de Selene, terras mais ao norte do Império, onde se tinha os melhores vidraceiros, e muita matéria prima para vidros. Oito Guardas Imperiais estavam dentro do quarto, quatro em pé e quatro sentados em cadeiras, todos nos cantos escuros do aposento, imóveis como estátuas, não se ouvia nem suas respirações com os elmos fechados. Uma fina luz entrava por entre as cortinas. Mornov olhou para luz, para o Imperador, depois para a luz e depois para o Imperador novamente.

Em uma grande cama de madeira branca exótica de Ifakor, com um imenso Dossel com babados de seda, estava o Imperador Falkem. Um homem que já fora imponente e impressionante até para Mornov, que não se impressiona com muita coisa, agora estava pálido e alquebrado. A barba branca do Imperador cascateava sobre seu peito, seus ombros largos pareciam encolhidos. Ele era musculoso e magro, como um pedaço duro de couro. Faixas cruzavam sua barriga, e pareciam um pouco ensanguentadas. Seus olhos estavam inchados, como se tivesse chorado muito.

Mornov se aproximou da cama e se ajoelhou no chão para chamar o Imperador, e nenhum dos Guardas estáticos se moveram.

– Excelso Imperador. O senhor me ouve?

– Eu te ouço Mornov – O Imperador estava com a voz fraca e rouca, como se tivesse gritado muito há pouco tempo – Eu te ouço.

-De a ordem e eu o caçarei. Enviarei todos os Praesidiums atrás de Atyon.

– Não – Falou o Imperador e depois tossiu – Ele não deve ser perseguido.

– Me conte o que aconteceu – Mornov falou

– Um monstro Mornov. Um monstro levou meu filho e um monstro matou meu filho. Mas não era o meu filho – Sua voz era febril, quase delirante.

– Um monstro levou e matou seu filho?

– Um monstro levou meu filho e um monstro matou meu filho. Como ele pode Mornov? Como ele foi capaz?

– Seu filho não era seu filho?

– Não mais – O Imperador respirou com dificuldade

– Atyon? – Mornov questionou.

– Atyon. O monstro.

– Você disse que um monstro levou e um monstro matou – Mornov tentava entender – Havia outro monstro?

– Sim – O Imperador sussurrava – Ele sempre esteve lá.

 

Comentário

 

Finalmente introduzimos um dos nossos personagens principais, e o nome dele é Mornov. A construção desse personagem se deu da seguinte forma:  primeiro eu pensei que devia haver um personagem com um cargo de alto poder dentro do Império, mas que não fosse o Imperador, pois eu detesto quando existem narrativas com reis, imperadores e seus herdeiros como personagens principais, o clichê do “retorno do rei”, aquela história em que o rei por direito tenta reaver o trono é muito batida. Decidi que Mornov seria Ministro da Defesa, um cargo que acumula poder militar e político. Como defeito emocional eu decidi que Mornov é emocionalmente distante das outras pessoas, talvez como um reflexo de sua praticidade, ele acha que emoções e relacionamentos são travas na vida diária de uma pessoa que trabalha em nome do desenvolvimento, educação e respeito em geral formam obstáculos no que se deve ser feito na opinião dele. Junto com isso eu atribui umas pequenas manias para ele, um leve transtorno obsessivo compulsivo, para dar mais “sabor” ao personagem tão insensível e mecânico. O estalar dos dedos no cinto é apenas uma das manias de simetria, já que ele tem de absolutamente estalar um número igual de vezes com cada mão. O personagem também é brilhante em matéria de tecnologias e avanços, com uma mente muitas vezes exclusivamente voltada para o objetivo de desenvolver o Império tecnologicamente.

A cena tem de começar com algo chocante, Hespéria me passa pela cabeça como a Londres de Jack o Estripador (principalmente em Do Inferno de Alan Moore), onde nada se ouve a noite, e os corpos podem ser encontrados ao amanhecer. E nesse caso eu inciei a história da fuga de Atyon e da morte dos guardas para incitar curiosidade sobre o que aconteceu não apenas no leitor, mas também em Mornov, que assume por auto-atribuição todos os fardos do Império Aéllico. Achei um toque legal a ideia do Sindicato da Informação, esta instituição jornalística primitiva, uma que será melhor explorada por outra personagem. Urik é outro personagem importante, e um que é mais do que nossos olhos de leitores vêem (em mais de um sentido).

Semana que vem teremos no segundo capítulo, o primeiro capítulo de Atyon.

Links:

Introdução




Categorias: Escrevendo, Produção Original
Tags: , , ,

Gustavo Domingues

Mordido por um advogado radioativo, Gustavo desenvolveu super poderes como: advocacia esperta, escrita relapsa, narrativa vingativa. Carrega um dispositivo no bolso que contem todo o conhecimento humano, mas ele o usa para brigar com estranhos e ver vídeos de gatos.

Adicione um comentário