Review boazinha: A Guerra dos Tronos – As Crônicas de Gelo e Fogo I

Escrito por: | em 28/11/2010 | Adicionar Comentário |

Sendo uma das obras estrangeiras mais comentadas esse ano no Brasil, A Guerra dos Tronos parece ter tomado seu lugar ao Sol junto ao público.

Como um ávido leitor de fantasia, acompanhei durante muito tempo as boas críticas e recomendações que se faziam a respeito da série Crônicas de Gelo e Fogo. Li diversas matérias que a consideravam a melhor obra da nossa época em seu gênero, o que só fez aumentar minha vontade de consumir o livro. Foi em 2009 que resolvi me render e encomendar o livro português já que não tinha esperança de que alguma editora trouxesse o livro para terras tupiniquins, pois há um grande preconceito com obras fantásticas. Mas foi justamente no dia seguinte que o autor Raphael Draccon anunciou que havia conseguido convencer a editora Leya a publicar o romance. Claro que cancelei a encomenda na hora e esperei mais um ano para lê-lo.

Em A Guerra dos Tronos acompanhamos a história do continente de Westeros e todas as manipulações e guerras para o controle do trono que o governa. Tudo se inicia quando o rei Robert Baratheon, que acabou de perder sua Mão (primeiro-ministro), resolve pedir para que seu melhor amigo de juventude, Ned Stark, assuma a posição, saindo de uma pacífica vida no Norte do reino. Tem início uma rede de conflitos e intrigas palacianas com extremas ramificações no passado, onde iremos aprender sobre o continente e as grandes famílias: os Baratheon, Stark, Lannister, Targaryen, e outras.

Para começar é preciso informar que o livro é bem diferente de tudo que você já leu. É sim uma fantasia medieval, com cavaleiros e castelos. Mas uma que se aproxima muito das intrigas e conflitos reais, não tendo um ar idílico como as obras Tolkenianas. Além disso, o livro não apresenta ao leitor, em momento algum, um protagonista, pelo contrário, acompanhamos vários personagens que participam da história.

Cada capítulo recebe o nome de um deles e estes vão se intercalando, fazendo-nos acompanhar seu progresso de forma seriada, levando-nos a esperar ansiosamente o próximo capítulo de determinado personagem para sabermos o que acontecerá. Lembrando em parte o formato utilizado por Faulkner no clássico Enquanto Agonizo. Isso deixa espaço para nos identificarmos com quem quisermos e torcermos para qualquer um, mas aviso logo, cuidado com quem simpatiza, tudo pode acontecer! George R. R. Martin faz poucos personagens maniqueístas, isto é, essencialmente bons ou maus, o que é mais próximo da realidade. Todos lutam pelo que acham certo.

É sem fundamento a associação a Tolkien. É um tipo bem diferente de fantasia. A única exceção é o fato de que Martin homenageou o mestre inglês com quatro personagens de um dos arcos da história. Jon, Samwell, Pyp e Grenn são versões Martinianas dos famosos hobbits, com características parecidas, mas desenvolvimentos diferentes.

Agora, vamos às pedras…

Dizem que em Westeros "o Rei come e a Mão (primeiro-ministro) recolhe a mer%&"

Senhor Martin, por que incluir dragões e mortos-vivos num livro que estava indo tão bem sem eles? O livro é de fantasia? Sim, mas também não precisava extrapolar. Ele se sustentou todo sem isso, poderia passar sem o primeiro e último capítulos. Seria muito mais palatável ao público que não gosta de fantasia se isso não ocorresse.

São poucos personagens maniqueístas, mas os que são, o são de uma forma absurda. Ned Stark é tão bonzinho que vira o bobo da corte, insiste em erros absurdos e confia em qualquer um. Viserys é quase o mal encarnado, uma espécie de personagem que nunca conseguiria viver no mundo real.

Mas o que mais me incomodou, tirando o estranhamento inicial de não conseguir me identificar com ninguém, foi Martin tentar alterar as leis da natureza. Em seu mundo, o relacionamento incestuoso entre irmãos não gera filhos deficientes, ou gera quase nenhum. No mundo real casamentos assim só ocorreram no Antigo Egito, no império Inca, na África central e em poucas outras ocasiões, mas em todas, os reis eram como deuses e eram civilizações bem primitivas. Mesmo assim o casamento era geralmente entre meio-irmãos. Na Espanha, os Habsburgos passaram por tantos anos de casamentos entre primos que a dinastia acabou após pouco mais de um século, com Carlos II, que tinha tantos problemas de saúde e crescimento que só veio a falar aos 4 anos de idade e a andar aos 8, além de ser estéril.

Veredicto: Como dizem, é bom morder para depois soprar. Apesar de tudo isso, é um ótimo exemplar de fantasia, embora assuste os não acostumados a ler mais de 500 páginas e tradução adaptada de Portugal. É uma obra que prende o leitor e o faz ler desenfreadamente do meio para o final para saber o que acontecerá, atraindo muito o público feminino por ter mulheres fortes. Martin foi primoroso por conseguir despertar em nós sentimentos fortes por alguns personagens, mais especificamente a raiva. Li em algum lugar o comentário de uma leitora que chorou pela primeira vez de ódio ao ler uma passagem do livro. Recomendo!

O sucesso é tão grande que a HBO está produzindo uma série baseada nele. Veremos o famoso Boromir de Senhor dos Anéis e Richard Sharpe de Cornwell  (Sean Bean) interpretar o tão confuso Ned Stark.

Sméagol, com inveja, também pedindo uma ponta na série



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Renan MacSan

Estudante de Medicina, leitor de longa data, jogador de games e amante de HQs. Tem como livro favorito O Nome da Rosa e sonha em terminar de escrever o seu. Leitura atual: Dança dos Dragões ; e Londres - O Romance.