Outras Mídias: Garota Interrompida

Escrito por: | em 15/01/2010 | Adicionar Comentário |

Adaptações cinematograficas de livros são sempre controvérsas, não tem jeito. É muito difícil agradar os fãs de ambas as mídias, e no fim das contas cada obra acaba ganhando seu próprio público e uma parcela menor de público comum.

Nesse caso em particular tenho a impressão que o filme acabou fazendo mais sucesso que o livro, até pelas estrelas envolvidas na produção, então embora a proposta seja comparar a mídia secundária ao livro que lhe deu origem, vou tentar também fazer o inverso, para quem aqueles que viram apenas o filme pensem se vale a pena ler o livro.

OBRA ORIGINAL OBRA DERIVADA
Capa
Título Moça, Interrompida
(Girl, Interruppted)
Garota, Interrompida
(Girl, Interrupted)
Autor ou Diretor Susanna Kaysen
James Mangold
Lisa Loomer
Ana Hamilton Phelan
Editora ou Estúdio N/A
Douglas Wick
Winona Ryder
Tipo Livro Filme


A primeira coisa que você tem que saber: o livro é baseado numa história real, a história da autora.

Isso deve influenciar um pouco a forma como a adapção é vista: uma coisa é adptar a ficção outra coisa é adaptar a realidade. Por mais importante que seja a liberdade artistica, aplicá-la a fatos que efetivamente aconteceram pode fazer uma grande diferença.

Se você não faz a menor idéia de sobre o que eu estou falando, vale a pena dizer: o livro conta a experiência da autora num hospital psiquiátrico, nos anos 60, descrevendo as pessoas que ela conheceu e as coisas que viveu no local.

A primeira grande diferença, para mim, entre o livro e o filme é o foco.

Embora a Susanna Kaysen (Winona Ryder no filme) seja a protagonista em ambas as versões, o filme da um enfoque ENORME na personagem Lisa (Angelina Jolie) enquanto  no livro ela é apenas uma entre as diversas internas que foram e vieram ao longo da estada da autora no hospital.

Outra coisa que muda no enfoque é que enquanto o livro todo é uma reflexão sobre a loucura e sobre os sentimentos e a perspectiva da autora em relação à sua própria “doença” e a das meninas que a cercam no hospital, o filme parece um pouco mais preocupado em mostrar garotas modernas presas nos anos 60 fazendo coisas “loucas”.

Não que essas coisas não aconteçam no livro, é só que o ritmo do filme mostra as atitudes da Lisa e da Susana de forma vazia, como meras demonstrações de comportamento caotico ou antisocial, o livro, até por ter ser auto-biografico, se preocupa em descrever que tipo de idéia, neura ou pensamento estava por tras disso.

De certa forma, para mim, isso tudo que eu disse muda o objetivo de cada uma dessas obras: o livro me conta uma história real, me faz pensar a loucura e a sanidade; o filme é entretenimento, me mostra pessoas em situações além do cotidiano.

O que eu prefiro? Talvez já tenha dado para perceber a essa altura, mas definitivamente o livro.

Entendam: o filme não é ruim, na verdade é bem legal, mas a falha dele, para mim, enquanto adaptação é que ele corrompe totalmente a imagem da protagonista, ele muda a biografia da autora.

Digo isso porque a Susanna do livro tem lá os seus problemas, suas loucuras que muitas vezes parecem com as loucuras de qualquer pessoa nos anos 90, mas ela é o que é. No filme ela parece alguém altamente influenciável, que fica de certa forma encantada pelo “universo da loucura” e depois acaba meio que “se vendendo” para sair dali. É claro que a versão do filme faz muito mais sentido se você quer vender aquela mídia, mas em termos de conteúdo a história acabou perdendo muita substância.

Em síntese: se a Susanna do filme quer parecer “descolada” porque tentou se matar, a Susanna do livro te explica como e porque ela tentou se matar, e como ela não queria se matar se verdade, e te faz pensar na sua própria visão do suicídio.

Meu trecho favorito do livro:

“O que pesou definitivamente na balança foi um outro pré-requisito: o meu estado de contrariedade. Minha ambição era negar. Fosse o mundo denso ou oco, ele só provocava minha negação. Quando era para estar acordada, eu dormia; se devia falar, me calava; quando um prazer se oferecia a mim, eu o evitava. Minha fome, minha sede, minha solidão, o tédio e o medo, tudo isso era, sempre, uma arma apontada para o meu inimigo, o mundo. É claro que o mundo não estava nem ai para esses sentimentos, e eles me atormentavam, mas eu extraia uma satisfação morbida do meu sofrimento. Ele confirmava a minha existência. Toda a minha integridade parecia residir em dizer Não. Portanto, a oportunidade de ser encarcerada era simplesmente atraente demais para que eu resistisse a ela. Era um Não descomunal – o maior Não do lado de cá do suicídio. Um raciocínio perverso. Por trás dessa perversidade, porém, eu sabia que não estava louca e que eles não poderiam me manter trancafiada num hospício”

(Kaysen, Susanna. Moça Interrompida. Tradução: Marcia Serra)

Meus trechos favoritos do filme: e de certa forma são os pensamentos que mais me remetem ao livro.

“Você já confundiu um sonho com a vida real? Ou roubou alguma coisa pela qual podia pagar? Você já se sentiu deprimido? Ou pensou que o trem estava andando quando estava parado? Talvez eu simplesmente fosse louca. Talvez fossem os anos 60. Ou talvez eu fosse apenas uma garota… interrompida”

“Se eu estava louca? talvez. Ou talvez a vida seja… Ser louco não é estar debilitado ou esconder um segredo sombio. É você, ou eu, amplificado.”

(Frases do filme “Garota Interrompida”. Tradução livre por Dani Toste)

Conclusão: Se você leu o livro e gostou o filme pode ter um pouco de liberdade artistica demais no que diz respeito à história, mas vale a pena ser visto mesmo assim, desde que você se lembre de não esperar dele uma adaptação fiel. Se você viu o filme o que você gostou ou odiou no filme pode influenciar a sua visão do livro, mas se a reflexão sobre o pensamento e a loucura foram os pontos altos para você, certamente vale a pena ler o livro.

Minha avaliação do filme é 03, porque acho que no fim, tanto como adaptação como quanto entretenimento, ele é mediano. Algo legal para ver se não estiver passando nada mais interessante da TV, mas nada que vá me fazer sair do meu caminho para assistir de novo.

Minha avaliação do livro eu deixo para um eventual podcast ou review, mas já adianto que está no meu TOP 3 livros favoritos de todos os tempos.



Categorias: Outras Mídias
Tags: , , , ,

Dani Toste

Advogada, jogadora de RPG, viciada em internet, amante de de livros, séries, música e filmes. Acha que o Lewis Carrol é um gênio, é obcecada pelos livros da Alice que considera os melhores do mundo.