Palavra Jagunça – Você pediu algo épico? Conan!

Escrito por: | em 30/05/2010 | Adicionar Comentário |

A fantasia, como gênero de história mais ou menos definido, tem marcas divertidas que atravessam obras, décadas e tentativas ficcionais: magia, guerreiros habilidosos, monstros impossíveis e mulheres lindíssimas (como heroínas, vilãs ou vítimas). A saga heróica de figuras incomuns, através de territórios ainda mais incomuns, tem povoado a nossa imaginação há um bocado de tempo. E se o britânico / sul-africano J.R.R. Tolkien tem grande responsabilidade nisso, o escritor americano Robert E. Howard cavou seu próprio modo de produzir histórias neste tipo de literatura. A minha sugestão de leitura de hoje tem a ver com ele, claro.

Seu personagem mais famoso – Conan da Ciméria – surge como a estrela de contos da Weird Tales, revista pulp publicada pela primeira vez no começo da década de 1920, no EUA. O próprio Conan, por sua vez, estreou nas páginas deste periódico de horror e fantasia em 1932, com o conhecido conto A fenix na espada. O imenso sucesso das histórias de suas façanhas em uma Era fictícia cuidadosamente criada (A Era Hiboriana) cruzou o século, fazendo do bárbaro espadachim um produto comercial e tanto – de HQs da Marvel Comics e Dark Horse a filmes de Schwarzenegger, passando por materiais produzidos por outros roteiristas (bons e ruins), até séries de animação. No fim, com tantas encarnações em outras formas de mídia, poucos tem se lembrado que Conan surgiu nesse gênero de texto rápido.

A Conrad publicou aqui no Brasil, em 2006, uma coleção de catorze contos traduzidos deste que é um dos símbolos da dita fantasia. O material se chama: Conan: o Cimério e não é novidade para os aficcionados em Howard. São dois volumes contendo os contos mais famosos e ilustres sobre o bárbaro, distribuindo histórias cheias de aventura, monstros e feitiçaria estranha, em um clima de violência e ocultismo que lembra outro escritor de histórias de terror – H.P. Lovecraft, correpondente costumeiro de Howard.

O estilo do autor está ligado ao tipo de publicação que envolve os textos: os contos tem como temática básica a luta do personagem título contra criaturas e mistérios ancestrais, perdidos no tempo e nas ruínas de um mundo caótico, povoado por povos “civilizados” e militarizados. É comum dizer que a Era Hiboriana é um misto de antiguidade e Idade Média, com nações fortes convivendo com tribos selvagens. No meio de tudo isso, está o andarilho e protagonista, ora mercenário, ora ladrão, ora rei.  Aqui entra o teor fabuloso de uma boa construção ficcional: Conan é inacreditavelmente invencível. Ainda assim, suas lutas ferrenhas com homens ou feras absurdas são recheadas de uma tensão constante, dado o estilo épico de Howard. Nesse sentido, o que pode parecer uma proposta chata de contação de histórias, se torna um conjunto divertido para os amantes de cenas épicas. Em diversos contos temos a impressão de que a habilidade descomunal de Conan é sempre colocada no limite, seja enfrentando demônios de metal, seja no confronto difícil com mais de um feiticeiro sem escrúpulos.

Ao que parece, em 1930 era fundamental que os heróis fossem máquinas funcionais – assim como era importante a presença da mulher como artigo de luxo… A imagem da donzela em perigo é usada sem piedade pelo escritor, o que pode deixar as leitoras (e alguns leitores) de hoje um tanto quanto irritadas(os). Por outro lado a perspectiva de Conan quase nunca é abordada, aumentando a impressão de que falamos de um aventureiro ideal, sem medos ou fraquezas. Mas não é assim o tempo inteiro e isso é a mágica de Howard. Ao criar um bárbaro violento e escolher compor histórias sem nenhum drama profundo ou receita moral, o escritor texano proporciona uma daquelas leituras leves e sem compromisso que tanto nos fazem bem. Os contos pecam, várias vezes, na repetição de alguns elementos, atacando a tão amada originalidade artística, sem causar, contudo, grande prejuízo – um tipo de processo criativo que, aliás, é defendido por uma certa amiga grifeira, aqui. :)

A edição de ambos os volumes é bem produzida, com poucas (mas boas) ilustrações em preto e branco de Mark Shultz. Os livros contam ainda com versões originais de contos não-publicados, trechos inacabados e a descrição da Era Hiboriana feita pelo próprio Howard.

É o tipo de coisa que me orgulho de ter na estante. Sabe como é… um passeio pelas terras inacreditáveis do continente thuriano, em épocas antigas e não-existentes é uma das melhores terapias para o stress vago do dia-a-dia… :D

Em tempo: os dois volumes estão a venda na Submarino por R$ 27,00 (em promoção) e R$ 39,00, respectivamente.

Dados dos livros:

Volume: 1

Editora: Conrad
Autor: ROBERT HOWARD
Ano: 2006
Edição: 1
Número de páginas: 290
Acabamento: Brochura
Formato: Médio

Volume 2

Ano: 2006
Edição: 1
Número de páginas: 253
Acabamento: Brochura
Formato: Médio

As imagens usadas neste artigo foram retiradas deste link e deste link apenas com intuito de resenha.



Categorias: Mangás e Quadrinhos
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Jagunço

Sociólogo, professor, blogueiro ocasional e amante de cinema pipoca. Acredita piamente que literatura é um troço extraordinário, uma das maiores formas de experiência humana, especialmente se você topa aprender algo com ela. Gosta de bom humor, enredos absurdos e de rir das marmotas da vida.

5 Comentários sobre Palavra Jagunça – Você pediu algo épico? Conan!

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  2. Gustavo Domingues

    O Jagunço, assim você me faz chorar. Falar logo do Conan cara?
    Conan foi meu início em fantasia em geral e é até hoje um de meus personagens favoritos de todos os tempos(aparentemente minha família não via nada demais em eu ler revistas cheias de sexo e violência desde os quatro anos de idade). Muita gente acha que Conan vêm depois de Senhor dos Anéis, mas isto é tolice, e o Sword&Sorcery estava muito antes na pegada, misturando tudo quanto era mitologia. Só para lembrar,no mundo de Conan existe: um povo chamado Aesir que é só de loiros e guerreia contra os Vanires que são ruivos, assim como na mitologia escandinava, e existe Mitra também, um deus Europeu muito popular entre pagãos no começo da idade das trevas, e que nasceu em uma manjedoura no dia de natal(este detalhe foi roubado depois pelo cristianismo), além de árabes e beduínos do deserto, piratas, Pictos(tradicionalmente habitantes das Ilhas Pictas no Reino Unido). E só uma pessoa muito ignorante acharia que as mulheres são inferiorizadas nas histórias do Conan, só se for por elas serem sempre sensuais, mas isto todas as mulheres da mídia são, pois nas histórias do cimério elas têm muita força, só como exemplo temos a Red Sonja(se lê Sônia) e Belite a rainha dos piratas, entre outras grandes guerreiras, princesas, rainhas e cortesãs(as feiticeiras morriam, assim como os feiticeiros).
    Quando li a Fênix na Espada pela primeira vez, quase tive um treco de tanta empolgação, e pretendo ainda comprar esta versão super bem encadernada.
    Gosto muito do detalhe da invencibilidade do Conan, ele é o que os heróis machões de hoje em dia tentam copiar em maior ou menor escala, como Kratos, 007 e outros brucutus.
    Puxa, deu até vontade de revirar minhas pilhas de revistas do Conan e matar a saudade…e depois assistir ele sendo encarnado pelo nosso Governator favorito.
    Valeu Jagunço
    Ótimo post.

  3. Jagunço

    Saaalve, grande Gustavo! :D

    Rapaz, eu, particularmente, sempre gostei mais da fantasia hiboriana do que da de Tolkien. Sei das profundidades literárias do segundo e, talvez por isso mesmo, prefiro a amoralidade simples e brutal de Conan e do seu mundo.

    Além das referências você traz outra coisa importante de lembrar: apesar de J.R.R. publicar coisas desde os anos 1920, os maiores sucessos do escritor são posteriores a Conan (vá lá que o oceano Atlântico diminui as chances de falarmos de “inspirações” ou influências de um e de outro, mas Howard merece sim ser lembrado como um pioneiro no gênero, pelo que sei).

    E continuo recomendando os contos para todos. :P

    P.S.: E A Torre do Elefante é, por exemplo, outras das mais insanas e bacanas histórias do gênero! Tanto em prosa como em HQ!

    • Dani Toste

      Gustavo e Jagunço,

      Acho que esses comentários gigantes ai são tudo blá blá blá, vocês gostam mesmo é de ver as gostosonas das revistas do Conan em vez dos elfos afeminados do Tolkien!!! Huahuahuahuahuahuahua….

      Agora, sério, eu nunca li Conan, mas tenho a sensação que não iria gostar muito, tenho uma tendência a preferir material mais bonitinho, fofinho e encantador do que “revistas cheias de sexo e violência” e “amoralidade simples e brutal”.

  4. Jagunço

    Huahauahuahauahauia… Ponto pra ti, senhorita Toste!

    Não vou negar que as descrições do Howard são bem melhores e mais interessantes, pelo menos no que diz respeito às nobres damas das histórias e todos os “detalhes narrativos” da coisa! :D
    E ainda nem falei de outro universo ficcional fan-service: Vampirella! Alguém aí consegue negar a importância artística e intelectual do gênero? hauhauaha…

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