Conn Iggulden: a primeira coluna do império é sempre a espada

Escrito por: | em 30/07/2010 | Adicionar Comentário |

Um pouco diferente das conquistas de hoje, o sabor nostálgico de uma vitória banhada a sangue com o misticismo conduzindo todas as decisões sem dúvida deixa a leitura de uma romance histórico interessante. Claro, não estou dizendo que hoje não há violência ou misticismo, mas sim que o homem ficou mais interiorizado e excessivamente lamurioso, e isto parece ter retirado algo da diversão das narrativas em ambientes mais recentes (Odin acharia tudo uma vergonha, afinal somente hoje nós temos vampiros indecisos cujo máximo de poder não vai além de uma intriguinha novelesca).

Conn Iggulden

Conn Iggulden

Naturalmente em Conn Iggulden ficamos com a primeira opção. Na mesma linha de Bernard Cornwell,  o autor desenvolve seu mundo em períodos históricos muito bem delimitados, com riqueza de detalhes e uma especial atenção para as batalhas. Sim, aqui o poder nasce de um monte de corpos jogados em um campo de batalha, na mais clássica forma de se forjar um império.

O autor tem duas grandes séries na bagagem, “O Imperador” e “O Conquistador”, bem como outros livros não tão famosos por aqui, como “O livro perigoso para garotos” e “O livro perigoso dos heróis”. Creio que a mais marcante é a tetralogia “O imperador”, a qual resume bem o estilo de Conn Iggulden. Não vou colocar spoilers, mas apresentar o autor é também apresentar sua obra prima, então aqui segue um pouco do seu mundo.

Há alguns meses comprei o primeiro livro desta série, que traz a vida de Júlio César, mostrando suas conquistas e a ascensão através da nobreza romana. Após a leitura dos dois primeiros capítulos imediatamente comprei os outros três livros, pois seria impossível ficar com minha biblioteca sem eles.

No primeiro livro da série, intitulado ” Os Portões de Roma”, Conn Iggulden mostra Júlio César ainda novo, com um espírito de criança, mas já forte. De maneira bem linear a estória vai expondo vários personagens, sem a preocupação de focar unicamente no jovem Júlio.

Onde esta quem vós chamais de Chuck Norris?

Onde está quem vós chamais de Chuck Norris?

No decorrer  dos capítulos é possível perceber um fortalecimento dos personagens graças ao contato cada vez mais constante com uma sociedade ansiosa pelo poder. E aqui há uma riqueza que atrai os amantes da história romana, pois o autor descreve tudo com detalhes assustadores, a ponto de o leitor realmente acreditar que todo o narrado realmente aconteceu.

Claro que Conn Iggulden não se prende completamente aos fatos. Basta uma pesquisa para descobrir que certos personagens não existiram, ou que alguns fatos são inverídicos. No entanto, o contexto em que eles são colocados faz os livros de História parecerem um sacrilégio. Imagino que se todos os praticantes de quiromancia tivessem essa capacidade de criação todos nós acreditaríamos que dente de ouro é algo bonito, ou sei lá em coisa pior. Enfim…

No primeiro livro não são trazidas tantas batalhas, e as que o autor colocou não se delongam em páginas e páginas descrevendo os mínimos detalhes. Este é ainda um aspecto bem positivo e torna a leitura agradável, sem deixar impacientes os leitores mais apressados.

Evidentemente nos próximos livros as batalhas se intensificam, acompanhando o período de turbulências do final do período da república romana. Estamos aqui diante de um épico que pode ser comparado com as Crônicas Saxônicas, tanto com a exaltação da força dos personagens como com o mesmo dilema que cegou Aquiles: a fama e o poder.

E assim também acontece com a série “O Conquistador”. Pela olhada passageira que dei, já que os três livros só chegaram em casa hoje, é outra coleção promissora. Esta traz Gengis Khan, figura lendária da Ásia que fez um império enorme. Pra fazer isto, somente com guerra e uma correta administração do poder, tudo escrito com sangue nas páginas do livro. Não tem o mesmo brilho de Júlio César, o que claramente se reflete no livro, mas não deixa de ser um grande romance.

Conn Iggulden pode ser colocado no mesmo patamar de Bernard Cornwell ainda que tenha menos livros publicados. Mas podemos esperar muita coisa para os próximos anos… Como ele virá em agosto para a Bienal do Livro de São Paulo, pode ser que ele fale algo sobre saga seguinte (em princípio, o quarto livro da coleção “O Conquistador”, com lançamento previsto para setembro).

Bem, resumindo, para os apreciadores de romances históricos, adoradores de Odin ou de Ares que sempre queimam um coração de cavalo em seus altares domésticos, sem dúvida este é um autor cujos livros não podem decepcionar.



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5 Comentários sobre Conn Iggulden: a primeira coluna do império é sempre a espada

  1. Renan MacSan

    Acho que Conn Iggulden tem um mérito muito grande, principalmente por ser um bom escritor que consegue criar histórias cativantes que prendem o leitor.

    Mas sinceramente não gosto muito dele. Porque a partir do momento que um autor resolve escrever uma “ficção histórica” acredito que ele tenha que usar o máximo possível de fatos históricos tendo liberdade em alguns aspectos. Mas não é o que acontece aqui.

    A série O Imperador é muito bem escrita, mas quase tudo do livro é inventado, ele distorce praticamente tudo. Eu que sempre me interessei muito pelo império romano ficava maluco com tanta coisa absurda que ele colocava. A surpresa do final do primeiro livro que é a revelação de quem era o amigo dele me fez questionar sinceramente se eu ia continuar lendo a coleção, é mudar muito tudo. Só continuei por ele ser bom escritor.

    São datas trocadas, acontecimentos no momento errado, personagens muito mais novos ou mais velhos do que na realidade, conceitos errados com relação às legiões, costumes modificados…

    Por tudo isso ainda acho Cornwell bem superior não só por respeitar mais a história mas acredito que escreva melhor, embora não deixe de recomendar Iggulden.

    • Eric Torres

      Renan,

      Não acho que as imprecisões históricas interfiram na qualidade do livro, afinal a literatura é igual qualquer outra arte…Você pega uma pedra e entalha, tirando a forma original dela para fazer algo melhor aos olhos. Tá certo, acho que o que realmente tenha acontecido no primeiro século antes de Cristo já seja fantástico aos olhos modernos, não precisando de modificações.

      Mas claro, como você falou, algumas criações são tão estranhas que surpreendem. No caso do primeiro livro eu quase cai da cadeira e fiquei me perguntando por um bom tempo se aquele Brutus era o filho da mãe que daria o abraço da morte anos depois. Eu queria ler o nome Marco Antonio ali, muito embora Júlio César não o tenha conhecido quando criança.

      Enfim, são pontos divergentes, mas que mesmo assim não me parecem um absurdo como alguém atravessando um espelho qualquer.

  2. Lucas

    Também gosto muito dos livros do Conn Iggulden, quase tanto do Bernrd Cornwell. Estou acabando o Lobo das Planícies e achei melhor do que o imperador, apesar de gostar mais do tema romano.

    Boa análise, parabéns.

    Abraços.

  3. Gustavo Domingues

    Belo artigo Eric
    Infortuitamente não li nehum livro de Conn Iggulden ainda, mas conheci seu estilo porque o próprio Bernard Cornwell disse que gostaria de ter escrito os livros de Conn.
    Um ponto possitivo que vejo dele em relação à Cornwell é o fato de que o segundo só escreve livros com protagonistas Anglo-Saxões, pois até quando ele quer fazer um viking ele faz um que nasceu saxão(ou um bretão que nasceu saxão). Já Conn consegue fazer protagonistas de culturas completamente diferentes em seus livros, então temos que vizualisar as distorções de fatos dele, pois Cornwell é historiador militar da Inglaterra de formação, e Conn teve de escrever histórias de culturas extremas que nem são de seu país.
    Parabéns pela escrita e pelo humor Eric, você é tão polivalente nas demais artes que acabo esquecendo como você escreve bem.

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