Review boazinha: Fora da Lei

Escrito por: | em 12/09/2010 | Adicionar Comentário |

Desde que foi lançado o 4º livro da série Crônicas Saxônicas, de Bernard Cornwell, por antecipação muita gente (eu, inclusive) ficou morrendo de ansiedade sobre a próxima aventura de Uhtred de Bebbanburg. Após tantas preces a Odin e Thor, no primeiro semestre deste ano o livro chegou ao Brasil, quando comprei na pré-estréia. Na mesma ocasião, um outro livro veio de presente com uma boa divulgação e, aparentemente, com uma temática que agradaria todos os fanáticos pela obra de Cornwell: Fora da Lei, de Angus Donald.

Divulgado ao lado de Terras em Chamas, Fora da Lei chegou na sombra do lançamento tão esperado e do filme Robin Hood, na época em estréia nos cinemas brasileiros. Ótimo, preço bom, comprei os dois, mas somente agora consegui ler para fazer um pequeno review sobre a obra.

Começando pela capa, em cima de uma flecha bem estilizada tem o título do livro com um apelo ao leitor: “Conheça Robin Hood, o Senhor da Floresta de Sherwood”. Até aqui tudo bem, principalmente para quem parte da premissa de que o protagonista é Robin Hood. Não, nada disso! O protagonista não é Robin Hood, a estória não é diretamente sobre ele, mas sobre um garoto que ingressa no quadrilha do arqueiro verde e sua vida em atividades não cristãs pela floresta. Para alguns leitores pode ser uma frustração, algo comparável a comprar um Playstation III novo por R$ 200,00 e dentro da caixa ter uma rapadura. Mas, analisando o livro como um todo, não é algo que seja prejudicial. Afinal, contos sobre Robin Hood são tão usuais que é bom dar uma renovada.

A estória é narrada por Alan Dale, que na velhice decide escrever sobre o seu ingresso no bando de Robin Hood. Alan era um garoto pobre que morava em uma aldeia de Nottingham, cuja sobrevivência era garantida por pequenos furtos. De imediato tenho que mencionar que não é um personagem que chame atenção, apesar de ser o protagonista. Não é demasiadamente hábil na espada, no arco, na inteligência, não é muito forte nem fisicamente diferente das outras pessoas. É um bom ladrão, só isso.

Teria sido melhor ir ver o filme do Pelé..

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A estória realmente começa quando Alan é pego após roubar uma torta de um comerciante em Nottingham. Alguns soldados o seguram até a chegada do xerife, Sir Ralph Murdac, que será responsável por determinar a punição. Alan consegue fugir e corre desesperadamente até a casa de sua mãe, que o orienta a ingressar no grupo de Robin para não ser morto pelos homens do xerife. Este é o primeiro contato de Alan com Robin.

Robin Hood quase sempre foi tratado como o messias dos pobres: um arqueiro bolchevique que tocaia um burguês na estrada, rouba suas posses e gentilmente distribui o produto da exploração capitalista entre os pobres. Muito bonito, mas como sempre esquece da velha natureza humana e se perde em meros sonhos.

Em Fora da Lei tudo isso é complementado por um personagem mais humano, com oscilações de caráter que pendem entre a bondade e a maldade. No livro ele é descrito como alguém frio-quente, ou seja, com um poder furioso da raiva contrastando com o controle frio de um homem calmo.

Se há uma festa, Robin estará comemorando com seus homens e eventualmente distribuindo dinheiro, mas diante de um traidor ou estuprador, não haverá qualquer prece que mude a condenação. No primeiro caso Robin olhará sem qualquer pena para a vítima que perderá a língua e depois será terrivelmente morta. No segundo ele também não esboça qualquer piedade do pobre coitado que é castrado em sua frente e sai cantando gritando Bad Romance igual a Lady Gaga.

Não se trata de um bando que rejeita o poder. Robin Hood condena especificamente o poder corrupto da Igreja e a pobreza imposta pelo rei, no entanto todo fora da lei se compromete a viver debaixo de um conjunto de regras que garante um mínimo de ordem. Robin se refere a todos como irmãos, mas na verdade ele é mais irmão do que os outros. Robin-Estado, por assim dizer: ele oferece proteção aos vilarejos que contribuem financeiramente, e com isso se compromete a punir eventuais violadores da paz.

A estória começa em 1188, embora os poucos relatos históricos indiquem para seu aparecimento apenas em meados do século seguinte. Não que tenha realmente existido, mas é fácil imaginar o ideal presente no povo. Por exemplo, quando Ricardo Coração de Leão se torna rei da Inglaterra (o que corresponde ao final do livro), tantos tributos são impostos à população para financiar a 3º cruzada que o país se afundou na miséria. Anos depois, com o cativeiro de Ricardo na Áustria, seu irmão João complicou ainda mais a situação com a arrecadação do valor do resgate. Assim, com constantes explorações é muito fácil sustentar a existência de algum ladrão que tenha se tornado um herói para os pobres.

Apesar de todos esses fatores ligados ao combate da injustiça e da exploração, aqui Robin Hood tem uma origem nobre. Até mesmo o seu ingresso em atividades criminosas não tem relação com qualquer convicção política.

Após matar o padre que era seu tutor, Robin foge de casa e se esconde em florestas, e com o tempo vai ganhando seus companheiros. Os personagens tradicionais das estórias de Robin, como João Pequeno, Frei Tuck e a amada Lady Marian estão presentes no livro.

De forma geral é um livro que carece de batalhas épicas, apenas contando com duas ou três escaramuças sem grandes detalhes e uma única batalha de grande porte no final. A narrativa se concentra em colocar as experiências de Alan no meio de homens rudes que gostam da simplicidade da floresta e de uma boa dose de bebida.

Algo que é particularmente estranho, principalmente quando se compara com os modos de Bernard Cornwell, é a descrição das relações mais íntimas. As experiências de Alan não se resumem em uma pequena afirmação que ele se tornou amante de alguém, mas é melhor que o próprio leitor confira isto ao ler o livro.

Fora da Lei pode parecer monótono para alguns, no entanto ao avançar na leitura a estória fica mais interessante. Na medida em que Alan vai ganhando a confiança de Robin, o livro ganha maior atenção do leitor, até mesmo porque novos trabalhos são dados ao jovem. E tudo culmina com a batalha final, na qual Angus Donald realmente quis detalhar a morte.

É um livro que eu considero bom, apesar das observações acima. Mas fica recomendado para todos os leitores e ouvintes do GrifoNosso.



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Comentário sobre Review boazinha: Fora da Lei

  1. Melissa

    Vi esse livro sexta-feira na livraria e li a contra capa, achei bem interessante. Pelo que você comentou, parece ser uma abordagem bem diferente da história do Robin Hood, o que eu acho muito legal, uma vez que pra chover no molhado é melhor ficar quieto na maioria das vezes. E achei essa idéia de colocar um personagem secundário narrando a história de alguém “grande” muito Cornwell-like, lembrei de “Crônicas de Arthur”.

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