Histórias Históricas: Holocausto

Escrito por: | em 19/12/2010 | Adicionar Comentário |

Estou abrindo essa nova coluna do Grifo Nosso no intuito de comentar o que há de melhor sobre obras de cunho histórico que saem por aí, que na verdade são a grande maioria dos livros que consumo.

Mas vou começar com o pé esquerdo, pois o grande cerne desse post não é um livro… sim, apesar disso é considerado por muitos a melhor obra do seu tipo, inclusive por mim, estou falando de nada menos do que a história em quadrinhos MAUS.

Para tudo! O que você estava fazendo para ainda não ter lido Maus?

Para citar algumas de suas recomendações, só vou dizer que o famosíssimo prêmio Pulitzer resolveu em 1992 dar um Pulitzer Especial exclusivamente para Maus, e depois disso nenhuma outra HQ (história em quadrinhos) recebeu o mesmo prêmio. Ah, e também ganhou o Harvey e o Eisner Award, dentre outros.

Ok, respira! Maus, é uma história quadrinística biográfica sobre um judeu na Polônia antes, durante e após a Segunda Guerra, Vladek, o pai do autor. Este é Art Spiegelman, um judeu americano de pais poloneses emigrados que teve uma infância muito difícil e uma convivência espinhosa com o pai (isso tudo vemos na HQ), pois Vladek tomava várias atitudes que o filho não entendia sendo às vezes muito rígido. É então que Art resolve escrever uma biografia do pai antes que ele morra. Ora, mas sendo um artista porque não fazer um quadrinho sobre o pai?

É isso que ele faz e faz magistralmente, não só a história é contada, mas acompanhamos em tempo real Art indo na casa do pai gravando, escrevendo e tomando atitudes quanto ao que vai fazer na obra que nós mesmos estamos lendo. Vemos o quanto Vladek realmente é ranzinza, até que no final da HQ podemos falar: Vladek tem o direito de ser ranzinza. É uma história não só sobre um homem que sofreu muito, mas sobre um povo, sobre o Holocausto. Vladek chega a ser aprisionado em Auschwitz, e, se a história estava sombria até aí, é então que ela penetra de vez nas trevas. Mas apesar de tudo há algumas alegrias ao longo da história e são elas que nos fazem continuar lendo, nunca perdendo a esperança.

Art é tão genial que no processo de criação da obra resolve retratar as pessoas como animais, não são humanos que vemos agindo, mas sim animais… só pode. Os judeus são ratos = maus no alemão (título da HQ), era do que eram chamados; os alemães são gatos, sempre atrás dos ratos e brincando com a presa; os poloneses são porcos, que entregaram muitos de seus vizinhos judeus; os americanos são os cães que só chegam ao final da história, etc.

Mas não se engane, Maus é uma HQ estritamente para adultos, há cenas muito fortes, e ao passar da leitura até nos esquecemos que são animais que estamos vendo. Você que não lê quadrinhos desde Turma da Mônica, ou que não passou de algumas edições esparsas de super-heróis, tem que dar uma chance a Maus e ser surpreendido. Já disse e reitero, é a melhor HQ que já li. E estou falando de uma que foi escrita no final dos anos 80, onde as técnicas de quadrinização eram bem rústicas se comparadas às atuais. É a melhor obra não acadêmica sobre o holocausto. Terrível época para judeus, deficientes, homossexuais, orientais, eslavos, ciganos, etc.

Ainda no assunto, tenho que citar outra HQ, Magneto: Testamento, lançada esse ano pela Panini. Nessa obra (capa dura e arte belíssima) não vemos poderes mutantes, mas sim acompanhamos a trajetória de um Magneto criança, o judeu alemão Max Eisenhardt que também sofre no Holocausto e vê seu mundo se desmoronando com as injustiças sofridas. No campo de concentração Max vira um sonderkommando, judeu que enterra os mortos, limpa a câmara de gás, e outras coisas. Mas assim ele se endurece e sobrevive roubando os pertences dos mortos. Vemos nitidamente a formação do caráter Magneto que tanto conhecemos, e passamos a compreender, em parte, porque que ele é o que é.

E finalmente, para não dizerem que não falei de livros… Bastardos Inglórios: Roteiro Original do Filme. Para quem, como eu, gostou da película, é um prato cheio. Nele aprendemos muito mais sobre o que não foi gravado ou foi cortado na edição dando um aprofundamento maior na visão de Tarantino sobre como deveria ter sido a Segunda Guerra. Além disso, há algumas notas e rodapés do diretor explicando melhor alguns conceitos da época.

Tantas obras sobre a Segunda Guerra, principalmente jogos, fizeram com que questionasse se já não basta. Por que bater na mesma tecla? Até que li uma análise que dizia que esse é um assunto que fascina, pois foi uma das únicas guerras, se não a única, em que havia nitidamente um confronto entre o bem e o mal. Em qualquer outra, todo lado tem a sua razão.

We’re gonna be doing one thing, one thing only… killing Nazis. – Lt. Aldo Rayne



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Renan MacSan

Estudante de Medicina, leitor de longa data, jogador de games e amante de HQs. Tem como livro favorito O Nome da Rosa e sonha em terminar de escrever o seu. Leitura atual: Dança dos Dragões ; e Londres - O Romance.

8 Comentários sobre Histórias Históricas: Holocausto

  1. Heider

    Gostaria de recomendar um documentário chamado Stalingrado, de 2003. Deve te fazer refletir sobre um bem vs um mau na segunda guerra mundial. Boa parte do documentário é constituido de entrevistas com sobreviventes.

  2. Heider

    Esqueci de falar: ele está disponível no piratebay sob o nome de stalingrad, e há legendas no legendas.tv e no subtitles.org. Também estava disponível no youtube legendado até um tempo atrás.

  3. Renan MacSan

    Heider, obrigado por comentar.
    Na verdade não disse que essa é a minha opinião, só uma frase usada por um estudioso. É muito difícil definir um certo ou errado em qualquer guerra, até porque todos estão agindo segundo as suas convicções, mas sempre inocentes sofrem. Sei que nas ciências humanas não há nada 100% correto, afinal não é matemática. Só queria entender o porquê do fascínio da mídia por essa guerra.

    Sei bem sobre os mandos e desmando do socialismo russo, como o general Zhukov que atingia seus objetivos sacrificando vidas de soldados num piscar de olhos, sobre o anti-semitismo que já fazia os judeus, por exemplo, servirem mais anos, ou sobre os estupros em massa ocorridos após a conquista da Alemanha. Mas valeu a recomendação, vou assistir ao documentário.

  4. cutia

    Poxa, gosteo bastante da coluna.
    Legal Ver o Grifo assim.

    Tive a ecolha entre maus e Retalhos, no começo do ano. Acabei ficando com retalhos. mas fiquei muito afim de ter maus!!!

  5. Jaime

    Adorei. Também tenho lá minha queda pelo cunho histórico. Renan, se tiver mais alguma indicação de livro legal sobre a Segunda Guerra, deixa aqui nos comentários, please?

  6. Renan MacSan

    Jaime, acho que um dos mais famosos sobre o holocausto é o Diários de Anne Frank, que impressiona por ter sido escrito por uma adolescente na época em que acontecia.
    Outro é Um Ato de Liberdade que fala sobre a resistência de um grupo de judeus na Bielorrússia. Esse virou filme há pouco tempo, adaptaram algumas coisas mas ficou bom.

    E especificamente sobre a segunda guerra não posso deixar de falar da série Band of Brothers. Nela acompanhamos um grupo de paraquedistas americanos na segunda guerra, é de ótima qualidade.
    E só por diversão tem um game que saiu ano passado chamado The Saboteur. Pra simplificar, é um GTA na França ocupada pelos nazistas, em que você é um agente sabotador de qualquer instalação nazista na cidade. É bem ficção, mas vale a diversão. Foi inspirado em parte na história do agente William Grover-Williams.

  7. Alexis González

    Leitura Obrigatória…

  8. Eric Torres

    Ótima coluna. Parabéns.

    Confesso que boa parte de meus livros é de ficção histórica e, mesmo para séries de TV e jogos, ainda mantenho essa preferência.

    E tocando na Segunda Guerra, que é um tema que simplesmente me fascina, vale lembrar úma das últimas séries da HBO: The Pacific. Apesar de não gostar muito do front no pacífico, é uma séie tão extraordinária quanto Band of Brothers.

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