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Histórias Históricas: Cruzadas

Escrito por: | em 09/01/2011 | Adicionar Comentário |

Livros sobre as Cruzadas existem aos montes, principalmente em língua inglesa, e se formos incluir o tema Templários acharemos uma infinidade deles. Grande parte lançada para se aproveitar do sucesso de Dan Brown em sua obra mais famosa. Não falarei destes, mas sim dos mais importantes publicados por aqui. Sintam-se à vontade para indicar algum.

Toda história tem um começo, e o início de algumas delas está em um livro chamado Ivanhoe do escocês Walter Scott. Lançada em 1819, a obra narra os feitos de um ex-cruzado que retorna à pátria (Inglaterra), e se vê rodeado por problemas e intrigas. Através de Sir Wilfred of Ivanhoe e alguns personagens históricos o autor nos apresenta a diversas questões da época como a dominação normanda sobre os saxões, o anti-semitismo, o estado de calamidade do país após financiar uma Cruzada (Terceira Cruzada – Ricardo Coração de Leão), o estranhamento com os muçulmanos, e etc.

Ele deve ser citado pela sua importância literária, mas praticamente não o recomendo. Scott fez uma ficção histórica para um grande público em uma época em que isso quase não existia e dessa forma a obra é por várias vezes massante, faltando a movimentação e argumentação das narrativas atuais.

Mas então por que falo de Ivanhoe? Simplesmente porque foi o maior sucesso de sua época, fazendo com que viesse à tona o assunto Cruzadas e despertando o interesse do público por ele. Ivanhoe é A ficção histórica, pois atingiu patamares que poucos livros alcançaram. Muita coisa do que já lemos ou assistimos tem a mão morta de Scott por trás. Por exemplo, ele que criou a figura do misterioso Cavaleiro Negro usada de diversas formas em vários meios (Batman não é chamado de cruzado encapuzado à toa); A divinização de Ricardo Coração de Leão foi reavivada pela obra; O fascínio pela época cavalheiresca; A abertura do mercado inglês de forma decisiva para produtos escoceses; e praticamente tudo que você conhece sobre Robin Hood usa os conceitos do livro.

Utilizando-se de manuscritos antigos e lendas como base, foi Scott que pela primeira vez colocou o fora da lei na época das Cruzadas fazendo dele um antigo cruzado, e deu forma a essa figura como um ladrão patriota, nobre e bem-humorado. Também deu a ele o nome de Locksley, provavelmente tirado de um único manuscrito do século XVII. Até a cena da flecha que acerta o alvo cortando ao meio outra flecha já cravada foi tirada daqui. Ainda assim Robin é apenas um dos coadjuvantes do livro. Se sentir curiosidade, a obra já é de domínio público, não a tradução.

Outro livro é Cruzada – No Reino do Paraíso, que só foi traduzido recentemente, de Henry Rider Haggard, o mesmo escritor do clássico As Minas do Rei Salomão. Conta a história dos irmãos Wulf e Godwin D’Arcy que resolvem virar cavaleiros cruzados para tentar resgatar a mulher que amam, Rosamunde, filha de um inglês com uma sarracena. Trata-se de uma obra que não se apega tanto à veracidade dos fatos, mas que tem certa importância lá fora. É considerado um dos melhores livros do autor.

Já sobre obras atuais, tenho que citar a excelente série As Cruzadas do sueco Jan Guillou. São três livros e um quarto extra, não importante para a narrativa. Nele acompanhamos a história de Arn Magnusson, que, ainda criança, sofre um grave acidente. Sua mãe, então, faz a promessa de que se fosse curado seria enviado para servir à Igreja. Assim Arn acaba virando um eclesiástico, e com o tempo, um cavaleiro Templário, enviado para livrar a Terra Santa dos pecadores.

São livros de grande qualidade que ensinam bastante sobre a história da Suécia e sua formação como nação, envolvendo intrigas para a tomada do trono, intrigas internas da Igreja, disputas de poder entre os nórdicos, lutas contra os muçulmanos, as diferenças de costumes e etc. Um ponto positivo, na minha opinião, é que Guillou pinta os Templários de forma diferente da que costumamos ver, não são apenas homens gananciosos e sedentos de sangue, mas sim pessoas normais que realmente acreditam que estão fazendo o bem ao livrar o mundo dos infiéis e que esse é um trabalho justo. Claro que há também alguns mal intencionados, e são eles que afundam a Ordem. Através de um processo de seleção rigoroso, só os mais capazes é que conseguem ganhar admissão, tornando os Templários em uma espécie de pelotão de elite no meio dos mercenários cruzados.

Arn também entra em contato com o outro lado, os muçulmanos, e faz amigos entre eles, incluindo Ṣalāḥ ad-Dīn, ou Saladino. Assim aprendemos mais sobre os costumes e opiniões do “inimigo”. Também há uma breve aparição de Ivanhoe, numa homenagem do autor. Guillou não escreve ficção histórica, mas se escrevesse, estaria concerteza entre meus favoritos. Há um filme baseado nos livros, mas fique longe dele, é horrível. Outro filme, o bastante ficcionalizado Cruzada, de Ridley Scott, que divide opiniões, chupou não oficialmente alguns elementos deste livro e do de Haggard.

Outra leitura, para quem quer entender um pouco mais profundamente o assunto, é Cruzadas da historiadora francesa Cécile Morrison, lançado na coleção L&PM pocket. O livro não consegue esgotar o assunto, mas ensina sobre a época através de fatos históricos. Nele aprendemos, dentre outras coisas, sobre a infame e questionável cruzada das crianças, quando algum eclesiástico louco, segundo as lendas, decidiu que somente os puros conseguiriam libertar a Terra Santa, assim juntou todas as crianças que pôde e foi rumo ao Oriente Médio com elas. Claro que não chegaram lá, tendo morrido ou sido escravizadas no caminho.

“Se alguma vez houve uma guerra religiosa foram as Cruzadas. Mas não se pode culpar os cristãos pelo ato de alguns aventureiros. Essa é a minha mensagem.” – Moustapha Akkad – cineasta muçulmano morto pela explosão de um homem-bomba.




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Renan MacSan

Estudante de Medicina, leitor de longa data, jogador de games e amante de HQs. Tem como livro favorito O Nome da Rosa e sonha em terminar de escrever o seu. Leitura atual: Dança dos Dragões ; e Londres - O Romance.

8 Comentários sobre Histórias Históricas: Cruzadas

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  2. Eric Torres

    Sempre tive um interesse enorme pelas cruzadas e pelos templários. Toda a paixão (ou fanatismo) que levou os homens a sair da Europa para reconquistar Jerusalém é algo que fica perfeito para um bom livro, ainda mais quando entramos nos interesses mais obscuros por trás de todas essas missões.

    Eu teria vários livros para indicar, mas o que eu considero melhor para uma leitura mais rápida é o livro Os Templários: História e Mito, de Michael Haag. Não é um livro muito grande e explica bem todos os fatos mais importantes, começando com uma história breve de Israel e da formação de Jerusalém, com os períodos de queda do governo local e domínio estrangeiro, passando em seguida pelas cruzadas e pela fuga dos templários para a Escócia, onde os cruzados teriam levado um conhecimento antigo obtido em escavações em Jerusalém e, na surdina, fundado uma organização secreta para a prática e desenvolvimento daquele conhecimento (sim, a maçonaria).

    Como ficção, estou lendo o primeiro volume da trilogia dos templários de Jack Whyte, Os Cavaleiros de Preto e Branco. Por enquanto não é muito focado nas batalhas dos cruzados, o que se vê por descrições de 25 linhas da tomada de uma cidade. Cornwell faria no mínimo 300 páginas para o cerco de Acre, mas tudo bem… Por enquanto o autor foi bem cuidadoso com a iniciação de Hugh de Payens na Ordem do Renascimento no Sião e apresentou um suspense muito agradável com a ida dos cavaleiros para Jerusalém, para restaurar o domínio cristão como meta oficial e, por trás dos panos, para buscar algum tesouro valiosíssimo para a Ordem.No geral é um livro bom, recomendado para quem gosta do assunto.

  3. R.Martino

    Minha dica vai para AS CRUZADAS VISTA PELOS ÁRABES, do autor Amin MAALOUF, que coloca como o avançado e culto povo oriental foi invadido pelos “bárbaros” do Ocidente.

    Muito bom, recomendo.

  4. Melissa

    Ivanhoe é um clássico da língua inglesa. Um super best-seller de seu tempo.

  5. cutia

    @Melissa, @Renan
    Eu li Ivanhoe quando criança, mas nao terminei. Tentei reler… e não consegui. E outros livros que eu tinha aconteciam o mesmo… Faziam parte da mesma colecao.
    Foi ai que descobri que o problema nao era o livro, mas a traducao. Depois que consegui uma legal, nossa… foi muito melhor.

  6. Gustavo Domingues

    Ótimas sugestões de livros.
    Eu ganhei o livro Cruzada – No Reino do Paraíso logo em seu lançamento e fiquei muito satisfeito. Boa história, livro maravilhosamente bem feito em termos de gráfica.

    Quanto à série de Guillou, confesso que tinha muito interesse por ela, pois havia sido indicada por fãs de Bernard Cornwell, mas assisti ao filme e fiquei com um pé atrás. Bom saber que os livros em nada se assemelham ao filme, já imaginava.

    Mas a parte em que Arn conhece Saladino e eles demonstram respito mútuo é muito forçada, eu esperava que fosse uma adaptação do filme, mas me entristece saber que está no livro, pois parece uma versão forçada e conveniente da relação histórica de Saladino e Ricardo.

  7. Renan MacSan

    Eric,
    Apesar de ter visto na livraria Os Cavaleiros de Preto e Branco achei que fosse só mais uma dessas obras medianas lançadas no embalo de O Código da Vinci. Mas pelo que você falou parece que me enganei, vou procurar. E quando terminar de ler diz se realmente é bom.

    Cutia,
    Infelizmente esse é um problema que acontece muito com as obras clássicas. Também já aconteceu comigo de ficar empacado em alguma tradução muito antiga, principalmente quando era mais novo. Seria melhor se as editoras parassem de publicar livros assim e renovassem as traduções, mas é mais barato pagar uma já feita do que encomendar uma nova.

    Gustavo,
    Concordo com você no que diz respeito a Arn conhecer Saladino, realmente é um tanto forçado. Mas se você pensar, a maioria dos personagens principais de Cornwell também encontram e muitas vezes ficam amigos de vários personagens históricos, tanto amigos quanto inimigos. É forçado? Talvez sim, mas também é muito bom, principalmente para os admiradores da história mundial.

    Além do mais, a amizade deles é uma coisa que se constrói ao acaso, sendo que um não sabe a identidade do outro no começo… não vou continuar para não dar spoiler. Mas saiba que é bem contada e serve como um instrumento do autor para mostrar o lado muçulmano e suas opiniões a respeito da guerra. Por exemplo, ele desmistifica a figura de Ricardo Coração de Leão, tão endeusada em Ivanhoe. Fala do massacre que ele fez em Acre, um dos piores, e ainda conta que por vários séculos as mães muçulmanas ainda colocariam medo nos seus filhos dizendo algo como: O coração de leão vem aí. Praticamente como o bicho-papão do Ocidente.

  8. Melissa

    Cutia, tradução é uma coisa muito séria. Algumas traduções podem realmente destruir toda a sua vontade de ler um livro. E com livros de aspecto histórico acho que a coisa fica mal feita. Imagina um Cornwell da vida mal traduzido?

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