Outras Mídias: Enrolados, da Disney

Escrito por: | em 09/02/2011 | Adicionar Comentário |

Hoje vou começar um segmento novo no “outras mídias”: As adaptações dos contos de fadas (que embora não sejam originalmente obras de literatura, foram imortalizadas quando passaram para o papel). E para tentar fazer uma coisa não tão “menininha” vou falar da mais recente obra da Disney: “Enrolados”, que pelo que se diz abandonou o nome do conto (Rapunzel) justamente para atrair os mocinhos para o cinema.

OBRA ORIGINAL OBRA DERIVADA
Capa

Título Rapunzel
Enrolados
Autor ou Diretor Irmãos Grimm
Nathan Greno
Byron Howard
Editora ou Estúdio Domínio Público
Walt Disney Pictures
Tipo Livro/Conto Filme/Animação


Vou começar dizendo: embora o filme tenha se baseado no conto, a história foi completamente alterada, da história dos irmãos Grimm ficou mesmo apenas a base “garota cabeluda presa na torre encontra o amor da sua vida” e eu vou contar como, portanto o trecho seguinte contém spoilers (do conto).

Para começar, enquanto na versão da Disney a Rapunzel é uma princesa cuja vida da mãe foi salva por uma flor mágica, no original ela é filha de camponeses, que eram vizinhos de uma feiticeira e quando o campones é pego roubando da horta da vizinha para saciar o desejo da esposa grávida, acaba prometendo entregar a criança para a feiticeira, que fica com ela a coloca no topo de uma torre. Diferente do filme, também, no original os cabelos da Rapunzel não tem nenhuma propriedade mágica, são simplesmente cabelos muito compridos.

Ilustração de Arthur Rackham da feiticeira subindo na torre pelos cabelos da Rapunzel

Bom, só para passar as diferenças rapidamente: o amor da vida da Rapunzel é que é príncipe, e não um ladrão; a Rapunzel não tem nenhuma jornada de volta para casa, mas a dificuldade de sair da torre; a própria feiticeira é que corta o cabelo da Rapunzel, mandando-a para longe, e engana o príncipe, jogando-o da torre e deixando-o cego; Só depois de muitos anos vagando é que o principe encontra a Rapunzel, com seus dois filhos, e suas lágrimas curam a cegueira do príncipe.

Quem assistiu o filme provavelmente reconheceu apenas poucos elementos do original. Para quem não assistiu fica o aviso: o filme tem os bons elementos dos novos filmes da Disney, os diálogos divertidos, as personalidades interessantes, etc., mas não é uma reprodução muito fiel do conto original.

Eu gostei do filme, mas tenho que alertar para algo que é um pouco triste para mim: desde a princesa e o sapo, os filmes de princesas da Disney não são mais os mesmos, não há mais aquela beleza encantadora, inocência e todos aqueles elementos de “menininha”.

Não culpo a Disney, de verdade, acho que eles estão evoluindo com o público e precisam mesmo fazer isso, mas a minha velhisse e caretisse morrem de saudade daqueles desenhos que eram de certa forma mais bregas e romanticos, e tem um pouco de dificuldade de amar esses novos filmes tanto quanto ama os clássicos. A impressão que eu tenho, atualmente, é que os “contos de fadas” estão perdendo um pouco da sua parte faerica.

Nesse caso específico, admito que a Rapunzel não era um dos meus contos favoritos e o final do próprio conto não tem aquela magia romantica e inocente (afinal, o principe demora ANOS para encontrar a Rapunzel e descobrimos que ela teve gemeos resultantes dos encontros na torre) – de certa forma, o enredo de “enrolados” foi até um pouco mais mágico, mesmo com as “modernices” da Disney.

Ilustração de Kay Nielsen da feiticeira cortando os cabelos da Rapunzel

O que eu prefiro? Pelo que eu acabei de escrever é difícil escolher uma obra favorita. Acho que se o filme tivesse aquele feeling dos antigos filmes de princesa eu o preferiria de longe, com as adaptações da história. Mas da forma como as coisas estão, acho que eu deixaria o empate: nem o conto está entre meus favoritos, nem o filme entrará para a minha coleção de clássicos da Disney que eu assisto vezes e mais vezes, incansavelmente.

Conclusão: Se você é fã de contos de fadas, e conhece Rapunzel, talvez fique um pouco mordido com as inúmeras modificações da história. Mas se você nunca viu Rapunzel mais gorda na vida, o filme é interessante, bem construído, bem animado, divertido e tem sim o selo de qualidade Disney. Só não vá sair por ai achando que você é um especialista em irmãos Grimm por ter assistido o filme.

De certa forma, acho que a idéia de mudar o nome representa bem a posição do filme: não é para ser um conto de fadas para menininhas apaixonadas, é uma animação Disney, com tudo que as suas modernas animações tem para oferecer. Se você gosta: ótimo; se você chora de saudades dos clássicos: prepare seus olhos.

Avaliação: Fiquei em dúvida entre 3 ou 4 grifos, porque o filme é mesmo de qualidade e tão bom quanto qualquer animação moderna. Mas optei pela nota menor e vou deixar bem claro que é uma opinião absolutamente pessoal: essa animação, como tantas outras animações atuais é super divertida, bem feita e legal, mas não gruda no meu cérebro.

É um filme que eu até vou assistir na TV se eu não estiver fazendo nada, mas não vou ficar com as músicas tocando na minha cabeça, não vou chegar alguns dias em casa com uma vontade louca de assisti-lo, não vou decorar as falas, comprar o DVD e obrigar meu namorado a assistir comigo pela 20ª vez só para mostrar como o principe da Bela Adormecida é um heroi hardcore.

Pode até ser saudade da infância ou porque as animações clássicas marcaram momentos importantes da minha vida, pode ser coisa de gente velha, mas a verdade é que o que eu acho que ficou faltando em “Enrolados” como em tantas animações que eu assisto hoje, é aquele “que” especial que me faz querer assistir o filme um milhão de vezes e me emocionar em todas elas, e sorrir e cantar (sim, eu sou apaixonada pelas músicas).

OBS: Como os contos de Grimm são domínio público, peguei uma capa aleatória para a obra original, mas que é de uma obra que provavelmente não tem o texto original do conto. Para ter acesso ao texto original eu recomendo o “The Annotated Brothers Grimm” da Editora Norton, ou mesmo o Projeto Gutenberg. Em português, não conheço nenhuma edição específica.



Categorias: Outras Mídias
Tags: , , , , , , , ,

Dani Toste

Advogada, jogadora de RPG, viciada em internet, amante de de livros, séries, música e filmes. Acha que o Lewis Carrol é um gênio, é obcecada pelos livros da Alice que considera os melhores do mundo.

12 Comentários sobre Outras Mídias: Enrolados, da Disney

  1. Pingback: Tweets that mention Grifo Nosso » Outras mídias: Enrolados, da Disney -- Topsy.com

  2. Melissa

    Eu adorei Enrolados! Gostei da nova abordagem e sinceramente, eu sou super fã das novas animações da Disney (apesar de preferir as da Pixar). Achei a história super bem bolada, amarradinha, roteiro um primor! Mas realmente, pra quem gosta dos clássicos clássicos, fica decepcionante.

    • Dani Toste

      Melissa,

      Então, eu tentei não ser injusta, porque o filme, em si, realmente é muito bom.

      O meu problema, de certa forma, é que a Disney criou expectativas muito grandes para mim em termos de adaptações de contos de fadas, e por melhor que filme seja ele simplesmente não desperta em mim aquela faisca que os clássicos acendem. Não é que eu ache decepcionante, é que não vai entrar para os meus grandes favoritos, como os filmes de princesa costumavam fazer.

  3. Melissa

    Realmente, a Disney mudou totalmente o foco dos “filmes de princesa”. Acho que eles tinham uma aura mais inocente, por assim dizer e por isso tinham uma magia diferente.

  4. Nilda

    Não tem muito como Rapunzel ter uma adaptação “inocente”, pq a mensagem do conto é bem clara: Não leve um rapaz ao seu quarto/cama sem autorização de seu pai/mãe/tutor, se não vai pagar caro pelas conseqüencias. O que fazia um bom sentido antes da invenção da pílula.

    Ainda não vi a adaptação da Disney, e o post me deixou com vontade de ver…

    • Dani Toste

      Nilda,

      Não acho que a mensagem seja só essa.

      Embora a Rapunzel tenha essa idéia das consequencias para quando se quebra uma regra (vamos lembrar que história toda começou porque o pai da Rapunzel foi roubar da bruxa), não acho que seja especificamente relacionado a levar o garoto para o quarto em si. Ademais, como eles se reencontram após a tragédia e vivem felizes para sempre, eu não acho que isso iria afastar as tentações (mesmo no original pré-grimm, que não devia ter um final feliz, acho que tem mais a ver com a questão da quebra de regras mesmo).

      E não acho que o conto não poderia ser inocente. Vale lembrar que ele é um conto curtíssimo e pouco detalhado, mas se você tirar a gravidez e der uma arrumada aqui e ali, não vejo porque não. Já foi feito antes com outros contos.

      E ressalto o que eu disse no post, na verdade eu acho que a base da história da adaptação da Disney ficou muito bonitinha, se ela fosse feita com aquele “que” dos clássicos antigos eu provavelmente teria amado loucamente.

  5. cutia

    Fui obrigado a ME levar no cinema… é claro que o a ordem veio de cima, minha namorada quem o diga. Rsrs

    O filme é murcho… não fosse o cupido… rs, personagem fantástico!!!
    Gostei dos das duas mídias. Mas o filme ficou fraco, e depois que sai do cinema fiquei com a sensação na cabeça: poderia ter visto na cessão da tarde, gastei o dinheiro a toa…

    Acho que tem estórias e estórias.
    Levando a bola novamente. Aqui prefiro a estória no conto…. e, comparando apenas nas escolha de mídia, prefiro Narina em Película!

  6. André Vasques

    E a Rapunzel de Shrek ?
    Tem o feeling ?

  7. Gustavo Domingues

    O sentimento que falta nos filmes atuais da Disney é o ódio aos Judeus:

    http://www.youtube.com/watch?v=fZcs1SHVbz0

  8. André Vasques

    ÓDIO AOS JUDEUS ? AI QUE ABSURDO !!!
    NEO NAZISMO NÃO NÉ GENTE PELO AMOR DE DEUS !!!

    Obs: Acho a Rapunzel de Shrek uma pessoa horrível pois trai a Fiona para se juntar com o Encantado.
    A Rapunzel da Disney é muito bonitinha, ela canta e tudo mas aquela dublagem do Luciano Huck para o tal de ”José” foi péssimo, ninguém merece.

  9. Gustavo Domingues

    Foi um comentário sarcástico…

  10. Eric Torres

    É Gustavo, também acho que a falta de ironia (ou substância, como queiram chamar…) matou um pouco a Disney. O desenho que vc colocou foi a minha primeira diversão com a Disney em anos…Nunca vi um culto ao chefe tão bem ironizado, mas hoje o objetivo dos desenhos é um pouco diferente.

Adicione um comentário