Review: Nada de novo no front

Escrito por: | em 20/02/2011 | Adicionar Comentário |

“Sou jovem, tenho vinte anos, mas da vida conheço apenas o desespero, o medo, a morte e a mais insana superficialidade que se estende sobre um abismo de sofrimento. Vejo como os povos são insultados uns contra os outros e como se matam em silêncio, ignorantes, tolos, submissos e inocentes… Que esperam de nós, se algum dia a guerra terminar? Durante todos esses anos, nossa única preocupação foi matar. Nossa primeira profissão na vida. Nosso conhecimento da vida limita-se à morte. Que se pode fazer, depois disto? Que será de nós?”

Quando pensamos em livros sobre guerras a primeira imagem que vem é da exaltação da coragem do soldado, de como ele consegue pular todos os obstáculos do conflito para impor o seu lado. Por trás de tudo isso tem o aspecto romântico que deixa a batalha simplesmente deliciosa, chegando algumas vezes a ser limpa e agradável, nada mais que um simplório joguete em que somente a honra pode ser mutilada.

Em Nada de Novo no Front, de Erich Maria Remarque, esse caráter belicoso é colocado de lado em prol de um enfoque da real condição do homem na batalha. Nada de soldados quase imbatíveis e de talentos soberbos que saem da trincheira para golpear o inimigo…  Aqui os combatentes são homens normais, com aflições típicas para alguém que suporta horas de bombardeio intenso sem um único minuto de sono.

O livro é baseado nos horrores vivenciados pelo autor durante a 1º Guerra Mundial, e por isso tem a forma de um diário no qual Remarque narra a campanha ao lado de seus amigos de armas. Não se trata em verdade de um livro protagonizado pelo autor, mas narrado por um soldado fictício: Paul Baumer.

Como toda uma geração de jovens, Paul e seus amigos de escola foram bombardeados por ideais ultra-nacionalistas de uma guerra para a defesa da honra da Alemanha e, já que os alemães eram orgulhosos demais para considerar a vitória desde o início, o bando de garotos cheios de espinhas caiu no barro das trincheiras francesas.

Com o passar das semanas a morte chega e vai levando o orgulho de um conflito romantizado. O baixo dinamismo que caracterizou a 1º Guerra é bem retratado na parte inicial do livro, com soldados divididos entre o ócio e a cara na lama. Ora jogando cartas e conversando sobre assuntos triviais, ora com o gosto da morte na boca, a narrativa nesta primeira parte acaba por guardar um certo tédio que leva o leitor a se perguntar quando é que o livro vai realmente começar.

Também pesa o caráter pouco literário do livro em alguns pontos, pois o autor tem o costume de construir períodos de forma tão objetiva, com frases diretas sobre ações e poucas descrições do ambiente de batalha, que fica a impressão de que falta alguma coisa. Naturalmente pelo formato de diário essas características podem ser vistas como ínsitas à narrativa, mas para o leitor acostumado com o excesso de sangue dificilmente será uma leitura agradável.

Por outro lado, boa parte dos diálogos é bem interessante na medida em que mostra o desenvolvimento da camaradagem entre os soldados. Eles percebem que toda a cultura aprendida na escola de nada serve em uma trincheira. Mais vale o instinto animal que o soldado desenvolve e a própria confiança no amigo ao lado.

O desajuste causado pela guerra também é retratado de uma maneira bem eficiente, com o claro intuito de mostrar a ausência de fundamento do conflito. Em um dos diálogos, por exemplo, Paul comenta que para os jovens a guerra é mais nociva, já que o único conhecimento prático que eles tem é da própria morte. Quanto a guerra terminar, e se terminar, eles não têm um emprego para retornar, não existem esposas para recebê-los, nada que possa ser feito em um mundo de paz. Se a única faceta da vida é a própria morte, a existência humana acaba por se anular em um eterno vazio.

Não é por outro motivo que, ao retornar para casa em uma licença, Paul se sente como um estranho. Apesar da tranquilidade e da boa comida, a sensação de vazio faz o front parecer cada vez mais atrativo.

A segunda metade do livro apresenta um pouco mais de ação, com descrições de missões feitas por Paul em meio ao fogo cerrado e, em um momento bem emocianante, quando ele ficou preso atrás das linhas inimigas. No fundo de tudo, realmante não há nada de novo no front… somente a morte é a companheira piedosa e constante de todo soldado.

O autor conseguiu o que queria com a obra. E foi justamente por isso que, com a ascenção do Nazismo na Alemanha, foguerias foram feitas para destruir seus livros. O fundamento de tudo foi a disseminação do espírito covarde, incompatível com os ideiais nazistas de bravura.

Não é um livro cujo dinamismo é marcante, uma vez que é  focalizado no desenvolvimento dos personagens e seus dramas. Se fosse dinâmico creio que o título da obra seria muito inadequado.

De toda maneira é um bom livro de guerra ainda, desde já recomendado para quem gosta deste tipo de literatura.



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2 Comentários sobre Review: Nada de novo no front

  1. Renan MacSan

    Eric, ótima review!
    Nada de Novo no Front é para mim um dos livros clássicos mais brilhantes. Não pela carga literária, mas sim pelo realismo de quem esteve lá e vivenciou tudo isso.

    Literariamente falando é sim um livro cheio de defeitos, você mesmo apontou alguns como o dinamismo, mas no meu ponto de vista esse que é o diferencial, pois não é um romance de um literato que imagina as cenas (de certa forma artificial), mas sim de um soldado real, um cara que expôs seus sentimentos através de um personagem fictício. O livro vale muito mais pela emoção verdadeira do que pela escrita.

    Lembro bem de uma cena no início em que um amigo fica esperando o outro morrer, o tempo todo no leito do hospital, só para poder pegar as botas dele. Mostra bem a confusão de sentimentos que é uma guerra, que eles mesmos não queriam.
    Se fizesse um Histórias Históricas sobre primeira guerra concerteza ele estaria lá.

  2. Nilda

    Eu li Nada de Novo do Front há mitos anos, e não o achei parado.
    E é sim, um dos maiores manifestos anti-guerra já escritos, e um dos melhores, pq foi escrito por um ex-combatente, que viveu uma das guerras mais sanguinárias, onde armas novas foram testadas nos combatentes, sem nem se pensar nas consequencias posteriores, em se treinar os soldados em como combatê-las ou escapar dos seus efeitos (muitos já conhecidos)

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