Primeiras Páginas: O Pianista

Escrito por: | em 17/06/2011 | Adicionar Comentário |

Quem acompanha o blog e o podcast talvez já tenha notado que em termos literários eu sou a mais criançona da equipe: amo livros infantis, felizes, fantásticos e mágicos (de preferência ilustrados e coloridos), mas às vezes é preciso ter contato também com coisas tristes e, infelizmente, nada fantasiosas ou mágicas. E é justamente das primeiras páginas de um livro auto-biográfico e triste que eu falarei hoje.

Capa do Livro "O Pianista" de Wladislaw Szpilman

Título: O Pianista | Autor: Wladislaw Szpilman
Tradutor: Tomasz Barcinski | Edição: Rio de Janeiro: BestBolso, 2008
ISBN: 978-85-7799-034-4 | Total de Páginas: 222
Páginas Lidas: 182 (51%)

Quem já ouviu nosso podcast sobre “O Menino do Pijama Listrado” talvez já tenha percebido que eu sou uma grande chorona quando se trata de histórias sobre o Holocausto, e não porque eu seja uma pessoa particularmente sensível a violência, eu não me importo de ve-las em filmes de fantasia ou ler sobre ela em livros de ficção, mas acho que é a realidade da coisa toda que realmente me abala. Então, depois de ter visto o filme “O Pianista” na semana passada e descobrir que era baseado num livro auto-biográfico eu resolvi engolir o choro e ler o que Szpilman tinha escrito sobre a própria experiência (talvez numa vã esperança de descobrir que o filme exagerava um pouco no seu sofrimento).

Ao que interessa então: A primeira versão do livro foi escrita em 1945, logo após a guerra, e nele Wladislaw Szpilman relata sua experiência sobre o período, desde que tomou conhecimento da guerra. A invasão dos alemães, os primeiros decretos determinando a quantidade de dinheiro que um judeu poderia possuir, a criação dos guetos, a transferência para os campos de concentração e o que houve com os judeus que permaneceram em Varsóvia, tudo isso é narrado pelo autor. O livro é curto e a narração tem um ritmo bom, sem muita enrolação, e acabei lendo essas 182 páginas em algo como uma hora e meia.

Poster do filme "O Pianista" de Roman Polansky

O que mais me chama atenção no livro é a perspectiva: não se trata de um relato frio sobre o que houve na guerra, e o que aconteceu quando ou por qual motivo. Em vez disso, conhecemos uma perspectiva absolutamente pessoal dos acontecimentos, sobre os sentimentos das pessoas naquele momento, sobre o medo, sobre a incerteza, sobre as pequenas histórias de pessoas que efetivamente viveram e morreram nos guetos de Varsóvia. Para mim essa perspectiva é que torna o livro tão interessante e, ao mesmo tempo, tão triste. Se você tem o coração mole como eu, não tenha dúvidas: o livro te fará chorar.

Embora eu não costume colocar citações em reviews vou abrir uma excessão, para vocês sentirem um pouco do “feeling” do livro. Esse foi um dos trechos que mais me emocionou, no qual ele conta de um Sr. que dirigia o orfanato e, quando da evacuação, seria poupado, mas decidiu acompanhar as crianças (para a morte) de livre e espontanea vontade:

A pequena coluna era comandada por um homem da SS que, como todo alemão, amava as crianças- principalmente aquelas que iria despachar para o outro mundo. Gostou sobretudo de um menino de uns 12 anos – um violinista com seu violino debaixo do braço. Colocou-o na frente da coluna e mandou-o tocar.

Quando dei com eles na rua Gesia, as crianças, sorridentes, cantavam em coro, acompanhadas pelo pequeno violinista, enquanto Korczak carregava nos braços os dois mais jovens, também risinhos, e contava-lhes algo muito engraçado.

Estou convencido de que, já dentro da câmara letal, quando o gás sufocava as traquéias e o medo tomava o lugar da alegria e da esperança no coração dos órfãos, o Velho Doutor lhes sussurrava, com as suas últimas forças:

– Isto não é nada, meus filhos! Isto não é nada… – desejando poupar seus pequenos protegidos do medo da passagem da vida para a morte.

Apesar de esse post não ser um “Outras Mídias” devo dizer que, até onde li, pude perceber que o filme é um retrato bastante fiel do relato de Szpilman, inclusive quando a pequenos fatos que o autor observava durante o decorrer da história, as poucas mudanças que notei acredito que têm mais a ver com o esforço de fazer a história toda caber no tempo de um filme.

Conclusão: É um livro triste (talvez te faça chorar) mas acredito que valha a pena ser lido. Dou 4 grifos fácil pelas primeiras páginas, o que significa que é um livro muito bom, na minha opinião.

Ler sobre o Holocausto me faz pensar muito sobre a natureza humana, sobre a essência do nosso espirito e sobre a importancia das decisões e ações que tomamos. Não é apenas sobre ver a postura cruel e desumana que alguns adotaram, mas também sobre as pessoas que arriscaram suas vidas para ajudar ou simplesmente confortar outras, é sobre pensar a respeito do que os seres humanos são capazes, para o bem e para o mal. Talvez não seja o tipo de leitura que agrade a todos os públicos, mas acho que é, ainda assim, recomendável para todos.



Categorias: Review: Primeiras Páginas
Tags: , , , , , ,

Dani Toste

Advogada, jogadora de RPG, viciada em internet, amante de de livros, séries, música e filmes. Acha que o Lewis Carrol é um gênio, é obcecada pelos livros da Alice que considera os melhores do mundo.

2 Comentários sobre Primeiras Páginas: O Pianista

  1. Heider Carlos

    que, como todo alemão, amava as crianças- principalmente aquelas que iria despachar para o outro mundo

    Impressionado com o preconceito desta linha. Um membro da Gestapo era muito diferente de um alemão esfomeado, pobre e que seria morte se não se juntasse à guerra. Embora seja um pensamento compreensível por tudo que ele sofreu.

    Vou colocar na minha lista. Adoro histórias da Segunda Guerra Mundial, são assustadoras.

    Tem um documentário chamado Stalingrad (tem pra baixar no thepiratebay, e legendas no legendas.tv). Ele é feito de filmagens e fotos da época, além de relatos de sobreviventes russos e alemães.A batalha por Stalingrad é uma das mais sangrentas da história, e ver os relatos de quem estava lá é chocante e perturbador.

  2. Dani Toste

    Heider,

    Se for um preconceito, acho que é justificado (ou compreensível, como vc mesmo disse), especialmente nesse momento do livro.

    O autor relata que foi quando da invasão de Varsóvia que ele viu um alemão pela primeira vez. Em seguida todos os contatos que teve com os alemães, fossem visuais ou físicos, contribuiram para formar esse conceito. Eu chamaria de generalização, mas não exatamente de preconceito, já que ele teve uma boa série de experiências com alemães antes de pensar isso.

    Nesse sentido, inclusive, ele relata numa parte do livro:

    “Entre os cadáveres dos homens jaziam também os corpos de uma jovem mulher e de duas menininhas com os crânios despedaçados. As pessoas apontavam para as marcas de sangue claramente visíveis e os restos de massa encefálica no muro, ao pé do qual jaziam os corpos. As crianças haviam sido assassinadas pelo método preferido dos alemães: agarravam-nas pelas pernas e arrebentavam suas cabeças contra o muro”

    Acho que para nós, agora, em outros tempos e fora da situação, a afirmação soa preconceituosa, mas infelizmente houve um número muito grande de alemães que contribiu bem ativamente para criar essa imagem à época.

    E mesmo hoje, de certa forma consigo entender que os alemães fossem apenas soldados cumprindo ordens, mas os requintes de crueldade serão eternamente incompreensíveis para mim.

    [spoiler]
    Vale lembrar que mais tarde o autor provavelmente aprenderá que nem todos os alemães são assim (não cheguei nessa parte no livro, mas pelo filme, sabemos que mais tarde é justamente um alemão que irá ajudá-lo a sobreviver)
    [/spoiler]

    Enfim, eu particularmente prefiro tentar focar minha atenção nos gestos maravilhosos e de absoluta humanidade que existiram nessa época, porque se eu me focar na parte cruel corro o risco de ter um colapso nervoso.

Adicione um comentário