Comparações literárias

Escrito por: | em 24/09/2011 | Adicionar Comentário |

"Viva a diferença!"

Esses dias, em mais um debate mortal com a Dani Toste, estava falando de como sinto falta de uma crítica mais comparativa nas resenhas aqui do Grifo. Pura bobagem cearense, é possível… Mas, quem sabe, renda algum papo a mais.

Começo pelo começo: a leitura tem dois formatos que todo leitor costumeiro conhece: ela pode ser lazer ou pode ser necessidade de trabalho ou formação. Leitores muito, muito ocasionais ou pessoas que tem a coragem duvidosa para alegar que “não gostam de ler” só reconhecem o primeiro dos lados. Os demais sabem da ambiguidade da coisa e de como ela é uma atividade como as demais – que é mais definida pelo contexto do que por qualquer coisa que lhe seja inerente.

Mas, quando o assunto é literatura, gosto de lembrar que não é tão fácil separar. A literatura é sempre um lazer? Se o livro que você lê não faz parte da bibliografia da sua faculdade ele é automaticamente uma atividade solta, descompromissada?

Parto da ideia de que a literatura é uma coisa sensacional pela sua pluralidade: além de ter o poder de nos proporcionar momentos de divertimento, ela também desempenha um papel de aprendizado constante. Ler um bom romance ou uma péssima novela tem, no mínimo, o mérito de nos informar mais sobre estilos, formas e sistemas de narrativa – enfiando em nossas cabeças as sensações de satisfação ou insatisfação que aparecerão em novas leituras quando, mesmo de forma pouco consciente, as comparamos com as já feitas.

Aí entro no centro da questão de hoje: quando comparar é bom? E por quê?

A comparação inconsciente é dura de negar. Seus gostos, suas manias e preferências de leitor(a) são criadas lááá no começo das primeiras experiências e, quando mudam, mudam por conta de tantas coisas que acontecem entre o cérebro e os hormônios que fica impossível criar qualquer esquema mecânico que os explique.

Mas a comparação consciente é um tipo de treinamento. É a principal ferramenta de críticos literários e de cinema e, para abrir um pouco mais a definição, pode valer como um instrumento de leitura muito útil, uma forma de estudo, um método para pensar os elementos das obras que adoramos e das que odiamos – e o porquê dos dois.

Se, afortunadamente, você aceita que a cultura pode ser um objeto pensado, debatido e que isso não é exclusividade de grandes teóricos, talvez goste desta conversa. Caso contrário, nem adianta. Melhor curtir a leitura como uma experiência pessoal e transcendente (um ponto de vista muito egocentrado, um tanto “Lua de Cristal”, penso eu, mas paciência…). :P

Resumo algumas das minhas impressões-ideias assim:

1) Comparar obras contemporâneas com clássicos e outros textos que tratam do mesmo tema é uma forma de saber onde o autor produziu algo novo, onde ele se espelhou em outros e o que há nele que pode ser encaixado em categorias de gosto e preferências. Quando se faz uma resenha, por exemplo, isso ajuda a tornar o debate mais bacana e justo: a sua leitura (que SEMPRE é feita a partir da sua perspectiva) pode ser explorada e pensada por outras pessoas. A comparação cria uma linguagem inteligível não só com seus interlocutores como com o passado literário. É aquela coisa de “situar uma obra” – um exercício que vai MUITO além de usar rótulos: cria relações entre uma prática (a escrita) que ganha sentido quando produzida socialmente.

Hã?!

"Como assim?! Quer dizer que eu não posso nem mais ter opinião?! MANHÊ!!!

2) Ao contrário do que gostamos de pensar “nossa opinião” não é um escudo inviolável à crítica. “É minha opinião!” pode significar uma luta pelo direito de discordar ou mesmo a afirmação de que tem uma crença diferente… mas não serve como armadura para se pensar coisas de forma isolada, uma vez que vivemos coletivamente e dividimos recursos de maneira direta ou indireta. É o tipo de ideia que só vira prática se você realmente não precisa de NINGUÉM – coisa hoje reservada a alguns multimilionários nômades ou a esquizofrênicos capazes de se sustentar – ou se você quer apenas consumir algo em seu mundo particular… O melhor exemplo disso é a escolha da música que é tocada em um ônibus de viagem: se todos usam fones de ouvido, ok, todo mundo pode escutar o que quiser… Mas se o sujeito coloca o funk no volume máximo pra que todos possam apreciar o gosto dele

Assim, se a ideia é vir aos fóruns da vida, aos lugares públicos, (sites, blogs, praças, grupos de discussão, etc), COMO “opinião” pode ser uma coisa final?!

É importante deixar claro que a opinião pode ser aprimorada pela comparação. Ela se reafirma quando pensamos aquilo que gostamos a partir de outros universos. É uma forma de tornar a opinião algo muito mais consciente do que uma mera defesa birrenta acerca da “genialidade” de obras da moda.

3) A comparação não tem a pretensão de anular o significado de uma obra nova. A função dela é entender a “conversa” que esta tem com o passado e outros textos e experiências. Da mesma forma a crítica não invalida a leitura de um texto mal avaliado: apenas constrói uma interpretação que pode, naturalmente, ser contestada usando os recursos do bom senso, da análise sem paixões exageradas. A ideia é que a leitura crítica possa dar ao leitor e aos leitores dele uma visão mais completa da coisa toda, uma experiência que complete a sensação de ler com a consciência de uma porção de leituras que tem relação com aquela.

Por que, tudo isso? Por que não continuar, simplesmente, lendo meus textos de qualquer forma? Uai, esse é um direito inalienável, por mais que eu considere limitante – porque ser chato é minha profissão. :) . Ninguém pode obrigar ninguém a mudar uma prática, então, fique a vontade, sempre.  Mas duas coisas podem ser usadas para situar este post. Primeiro, penso que a comparação é um processo natural da inteligência literária. A fazemos de qualquer forma, como disse antes, mas quando a tomamos de forma consciente a coisa pode ser melhor e nos enriquece de vários modos. Segundo… A conversa aqui tem a pretensão de servir de ponta-pé: é uma opinião, no sentido de uma perspectiva que desenvolvi com o tempo e que está aberta a ser revista. Nada que uma discussão não possa acrescentar – contanto que ela seja bem bacana, afiada e mungangueira. :)

Peixeiras!



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Jagunço

Sociólogo, professor, blogueiro ocasional e amante de cinema pipoca. Acredita piamente que literatura é um troço extraordinário, uma das maiores formas de experiência humana, especialmente se você topa aprender algo com ela. Gosta de bom humor, enredos absurdos e de rir das marmotas da vida.

6 Comentários sobre Comparações literárias

  1. Dani Toste

    Aiaiai… será que devo reproduzir aqui parte da nossa conversa sem os pedaços nos quais te xinguei e ameacei? *rs*

    Mas falando sério, eu entendo o que você quer dizer, por um lado, mas a questão é que, honestamente, não gosto disso.

    Para mim esse debate sequer é um debate literário, mas artístico. Tenho um irmão músico, então já tive conversas muito semelhantes sobre análise musical, e para mim sempre são válidas as mesmas premissas.

    Sim, eu acho que o crítico de literatura, o crítico musical, o crítico de arte, o crítico de comida, o crítico de cinema, etc. todos esses caras fazem comparações, analisam critérios técnicos, se preocupam com uma série de elementos para determinar o que é e o que não é bom. Mas eu tenho um problema: não gosto de críticos.

    Não quer dizer que eu não tenha meu lado crítico, é claro, mas que quando se trata de algum tipo de arte eu realmente acredito que a experiência vale mais do que outros critérios. Eu escrevi, há pouco tempo, um post justamente sobre critérios que eu acho relevantes para análise de um livro, falando sobre essa questão. E no fim, não é que eu não compare as coisas, mas que o aquilo que eu prefiro comparar são justamente as experiências.

    Em alguns aspectos, literatura não é muito diferente de música para mim, eu me importo muito menos com a qualidade técnica da obra do que com os sentimentos que ela despertou em mim.

    Você já ouviu uma música que te deixasse feliz? simplesmente feliz sem nenhum motivo aparente? eu já encontrei algumas músicas que fizeram isso comigo, e pouco me importa quantos acordes elas tinham, se eram inovadoras, se exigiam muita habilidade para ser tocadas, as musicas eram simplesmente ótimas para mim porque tinham o poder de me deixar feliz. E com os livros não é muito diferente, se um livro me cativa, se ele me faz entrar naquele universo e sentir alguma coisa que valha a pena, pouco me importa se ele é ou não uma ideia batida ou revolucionária.

    Sério mesmo, estou cansada de ouvir o pessoal meter o pau na série “Percy Jackson e os Olimpianos”, de dizerem que isso ou aquilo é igual ao “Harry Potter” e, de verdade? eu sequer tinha pensado nas comparações dom o HP até o dia em que gravamos o podcast e a Juliana mencionou. Eu adorei a série, adorei as premissas, me envolvi tanto na história que nem tive paciência de esperar saírem as traduções no Brasil. É isso que importa para mim mais do que qualquer comparação ou análise técnica. O Rick Riordan é um gênio literário? É um plagiador? É um idiota? honestamente não me importa, para mim ele é um cara que escreveu uma série de livros que eu amei.

    Por outro lado, “Viagem ao centro da terra” é um clássico, amado e idolatrado por muitos, e as pessoas vivem me dizendo que eu preciso tentar entender a perspectiva a partir da época em que o livro foi escrito e etc. mas para mim isso não existe, eu não li o livro em outra época, eu li ele agora e o que me importa é o que ele me transmite agora (diga-se de passagem, Carroll também é de outra época e eu não precisei mudar de perspectiva para adorar a obra dele).

    E não posso concordar ainda, com essa ideia de que a opinião não possa ser uma coisa final em lugares públicos como blogs. Diferente das mídias tradicionais, acho que os blogs tem justamente essa vantagem: as opiniões (e, diferente do ônibus, as pessoas que não se interessam por um tal “gosto” podem simplesmente não acessá-lo, no ônibus, infelizmente, não da para ficar temporariamente surdo…). Espero honestamente que as pessoas não venham aqui buscar uma crítica literária séria, mas saber nossa opinião, espero que alguém que não gostou de “Viagem ao centro da terra” venha aqui e pense: “Olha, existe outra louca que compartilha da minha opinião” e quem discorda pensa “aff… como pode esse ser estranho achar ‘Crepúsculo’ melhor que Julio Verne”, mas que continue vindo aqui, para rir de mim, ou comigo, para me achar louca, desvairada e de opinião duvidosa, ou para discordar, ou para concordar.

    É isso que os blogs são para mim, um lugar para procurar opiniões, semelhanças, diferenças, para concordar e para discordar das opiniões alheias, para procurar uma avaliação diferente da dos críticos literários. Porque se todo mundo for ser técnico, e se todo mundo for ser comparativo, e se as coisas deixarem de ser uma questão de opinião, então é melhor para tudo, juntar algum especialista no assunto, fazer um canal universal de literatura e postar lá as criticas sérias, porque se não for uma questão de opinião, se existe uma avaliação “verdadeira” a ser encontrada em cada obra, então não havia necessidade de um monte de gente falar a mesma coisa.

    Enfim, quanto ao podcast no geral, os demais integrantes são livres para ser mais ou menos técnicos na sua análise, mas não espere isso de mim, eu não quero ser crítica de literatura, quero dar a minha honesta opinião, expressar o que uma obra me faz sentir e não o que ela representa para o mundo literário. Eu comparo sim, mas comparo meus próprios gostos, meus próprios sentimentos, minhas próprias experiências.

    Porque, de verdade, no fim das contas, acho que é isso que importa, o que a obra representa para cada pessoa que a lê, as memórias que ela cria para nós, os sentimentos que desperta.

    • Jagunço

      “E não posso concordar ainda, com essa ideia de que a opinião não possa ser uma coisa final em lugares públicos como blogs.”

      Só isso já mata possibilidade de conversa, Dani. É uma pena.

      Se a ideia é só registrar a opinião e pronto. Uma opinião sobre a qual o opinador não disposto nem mesmo a refletir, como uma espécie de “é assim e pronto, quem quiser que pense diferente” eu acho que se perde muita coisa, inclusive as várias funções bacanas que um blog, possui.

      Você coloca as coisas de um jeito tão subjetivo, tão aparentemente amarrado numa ideia inviolável e em uma verdade inquestionável (no que ela tem de emocional, de privado, quase de místico!)… Parece uma autodefesa… Nada, jamais, vai poder questionar a leitura… Então, não há conversa sobre ela…?

      Torço pra que mais gente pense diferente. Porque eu gosto de críticos. Eles são menos arrogantes do que o leitor geral acredita e o preconceito para com a prática da crítica, no meu entendimento, só limita ainda mais o exercício de leitura.

      Meus centavos. Por enquanto.

      • Dani Toste

        Hun… talvez você não tenha entendido exatamente o que eu quero dizer.

        Não é “essa é a minha opinião e é a verdade absoluta e ninguém pode questionar”, é mais para “essa é a minha opinião, qual a sua?”, é um espaço para opiniões diferentes conviverem pacificamente, ou serem debatidas. Veja, é completamente o contrário de uma verdade inquestionável, está mais para uma verdade relativa (se é que isso existe). A “crítica séria” é que tem para mim essa idéia de verdade inviolável, como se só houvesse uma resposta possível para a pergunta “esse livro é bom?” e eu não acho que exista.

        Agora, por um lado, sim, minha opinião é uma verdade inquestionável. Não para os outros, mas para mim. Se eu “ADOREI” um livro, então eu adorei e pronto, é isso que eu senti, ele pode ser um lixo do ponto de vista técnico, ele pode não ser o melhor livro do mundo, ele pode ser péssimo comparado com algum outro, mas nada disso vai mudar o fato de que eu realmente e verdadeiramente adorei aquele livro. Entende?

        A idéia é que ninguém pode me falar: “você não pode gostar desse livro, porque ele é ruim!”, mas as pessoas podem E DEVEM sim dizer: “Concordo, esse livro é ótimo, por tal motivo” ou “discordo, esse livro é um lixo, por tal motivo” ou qualquer outra coisa, mas eu, pessoalmente, simplesmente não consigo ler um livro de forma fria e sem emoção, eu leio o livro e o que eu sinto quando leio influencia muito o que eu penso sobre ele.

        O que eu quero dizer é, matar o debate não tem a ver com Crítica X Opinião, seja crítica, seja opinião, seja análise técnica, o debate está em aceitar que existem pontos de vista distintos e debater os motivos, mas eu duvido (não estou dizendo que seja impossível) que o debate sobre os motivos (ainda que seja construtivo) vá mudar o sentimento que alguém tem em relação a um livro. Quero dizer, não é questão de refletir sobre a opinião, você pode fazer isso em alguns casos, mas sobre “gostar” ou “não gostar” de algo, a reflexão pode esclarecer coisas sobre os motivos, mas você acha que ela realmente pode mudar seu sentimento em relação a isso? Você acha que pode deixar de gostar de um livro do qual você tenha gostado só porque pesou ele em comparação com algum outro?

        Veja, minha resposta não foi em termos de “minha opinião é essa e pronto”, mas em termos de que eu prefiro expor o que eu “sinto” de um livro do que fazer uma analise técnica dele. E não para que as pessoas não opiniem sobre isso, mas para que elas concordem ou discordem se quiserem, para conversarmos sobre porque pensamos igual ou sobre porque pensamos diferente. Mas é essa a questão, porque o que eu realmente gosto nos blogs e nas “novas mídias” é justamente isso, é a conversa, não importa se alguém concorda ou discorda da nota que eu dei para um livro, ou se nossa conversa vai fazer com que ele ou com que eu mude de opinião, importa esse meio. Me importa mais conhecer outros pontos de vista do que necessariamente mudá-los (ou molda-los).

        • Jagunço

          Hmmm… Acho que entendi sim. Maaas…

          Primeiro: insisto que o debate é literário. Colocar a música, que é um universo MUITO diferente, só complicaria demais as coisas. Meu texto e minha opinião se referem a literatura (pra ser ainda mais preciso: a prosa).

          Os críticos de que você fala usam elementos para determinar o que é bom NA PERSPECTIVA DELES e da tradição teórica-técnica na qual eles se baseiam. Não existe crítico são que coloque as coisas em termos absolutos e indiscutíveis. Agora, o que ele faz é tratar a obra não como uma coisa sagrada e sim como produto humano. Que fica mais claro quando olhando sob os contextos.

          Você não gosta de críticos e eu não gosto de advogados. XD Mas tenho muitos amigos em ambas as profissões e sei a importância delas – no segundo caso, a de salvar muito bandido com recursos retóricos. hauhauaahuaha…

          Acho justo e válido pensar a obra a partir da sensação que ela causa. Mas, a minha defesa é que isso aí é POUCO. É possível ir além, pensando a obra dentro de outras coisas – estilo, público, produção, etc. É mais técnico e pode não ser sua vontade, mas, no meu entendimento, renderia um plus a qualquer análise.

          Ok, respeito a sua forma de levar o cast, mas continuo insistindo (vai que alguma alma do grupo me ouve!): resenhas comparativas são bacanas e não vai causar dor. Só exigir leitura – coisa que não falta a nenhum dos membros!

          Por fim, o que me causa estranhamento é isso da opinião “pessoal” que parece estar vedada quando você diz o “pra mim”. Aceito que uma crítica ou comparação pode não ter o poder de mudar uma sensação boa sobre determinada leitura… Mas à vezes tem sim, ao apontar textos semelhantes e até mesmo ao fazer perceber que o texto que se lê não sobrevive a uma segunda leitura mais crítica, em outro momento. Sem falar que opinião como espaço de conversa tem a vantagem de fazer com que a gente aprenda e perceba coisas que apenas a percepção do outro pode trazer. :)

  2. Melissa

    *respira fundo*

    Eu concordo com seu ponto de vista, Jagunço, mas eu acho que um blog é sim um espaço pra colocar a sua opinião, sua impressão pessoal, suas paixões, suas obcessões literárias. Digamos. Eu tenho uma visão muito parecida com a da Dani Toste. Sei lá, eu acho que tem livro pelo qual você se apaixona mesmo e quer falar loucamente sobre ele, sem se preocupar com críticos e tudo mais. Sem teoria. Só paixão, sabe. E não, isso não quer dizer que a minha opinião é a verdade absoluta, é só uma impressão pessoal.

    E antes que alguém possa falar alguma coisa, sou estudante de pós-graduação em Estudos Literários. Ou seja, minha profissão é fazer crítica. Eu convivo com Teoria da Literatura e Literatura Comparada grande parte do meu dia e posso dizer que falo com certa propriedade sobre termos específicos da literatura e até de alguns conceitos de crítica estética. Então eu posso dizer que literatura comparada é um campo lodoso e minado, é uma terra louca. É possível comparar relações inter e intra autor, comparar textos de um mesmo texto, intertexualidades de textos do mesmo autor ou de autores diferentes, comparar temas, comparar teoria, comparar conceito, comparar elemento, comparar narratividade, comparar tradução, comparar tradutibilidade, e é até possível comparar e relativar tudo isso. hahaha Ai ai

    Olha, eu não estou falando isso porque quero ser pedante, só estou querendo save the face pra depois não me jogarem pedra (e tem muita gente que joga) mas eu acho que literatura, como qualquer outra arte (e isso inclui música SIM) tem a ver com paixão. Putz, eu já li uma porrada de clássicos, já li literatura de tudo quanto é tipo e meu livro favorito é Harry Potter. Então… Claro que aceito dialogar, mas duvido que o argumento de alguém vai mudar minha opinião. Simplesmente porque ela é algo passional.

    Já li muitos livros que admiro pela tão chamada “qualidade literária”, mas que não me comovem. Eu leio e digo “que coisa, usou recurso X Y Z, okay. Legal” mas não me empolga. E sinceramente, eu valorizo o que me empolga. É por isso que eu tenho um blog literário, pra dividir minhas impressões e paixoes e ouvir as impressões/paixões dos outros.

    Entendo que você diz que o diálogo e a troca de idéias e a comparação pode sim enriquecer a experiência de leitura de alguém, mas sinceramente, eu não vejo muito sentido em comparar algumas coisas. Simplesmente porque não faz lá muito sentido. Pelo menos não o sentido que eu procuro.

    Eu espero que tenha dado pra me entender. É o tipo de assunto mais fácil de discutir cara a cara.

    • Jagunço

      Oi, Melissa! Demorei, mas voltei.

      (Respirando fundo também!) :)

      Acho sempre bacana discutir com a turma dos Estudos Literários. Falo a partir de uma outra área, por onde andei, durante a minha formação: sociologia da literatura. E, assim como você, digo isso porque acho legal situar o nosso “lugar de fala” – o lugar de onde algumas ideias aparecem.
      (ou seja, pessoal: ninguém aqui tem a pretensão boba de limitar a conversa a qualquer tipo de “especialista”)
      Não duvido que a sua área seja assim, “caótica”. Ela é mais uma área das Humanidades e seria ingenuidade nossa achar que esse é um campo da certeza, da matematização do saber. Mas não acho – e creio que você também não – que isso retire a importância do campo de estudos. Só cria diferentes formas de trabalho e de pensamento sobre uma coisa.
      Não sou contra isso. Acho que tem que ser assim, mesmo. Ouvi dizer que quem acha que o mundo deve ser habitado apenas por engenheiros e escravos é gente retardada. :P
      Mas não aceito tão bem assim esse argumento da paixão. Pra mim ele continua parecendo fuga. Ou, simplesmente, vontade de não pensar sobre o que se lê. O que é, claro, um direito de qualquer leitor. Não defendo a obrigatoriedade da comparação, só a sua contribuição. Pode ser uma “pregação” até vã, já que o tom do subjetivo faz parecer que o leitor está livre de qualquer comparação. Só que não está.
      A comparação e a crítica são atividades incômodas porque são atividades que falam de poder. Todos os dias as pessoas são julgadas e classificadas por seus gostos culturais e seu modo de lidar com eles (e você pode dizer que não liga, mas ainda assim o julgamento tem pesos práticos). E, lá, bem na frente, isso tem a ver com análise da literatura, porque literatura é uma das formas pelas quais nós entendemos e pensamos o mundo (dito de uma forma bem geral, claro).
      Um exemplo muito simples é o gosto por livros de auto-ajuda como os escritos por Augusto Cury. Qualquer um tem o direito de gostar deles, claro… Mas seria bem melhor se o leitor percebesse que muitas vezes esses livros querem defender que a responsabilidade dos problemas da vida é uma questão de personalidade. Será que a vida é assim mesmo? Uma questão de “adequar o espírito ao mundo”? A comparação ajuda nisso.
      A ideia do texto e desse comentário não é obrigar nada a ninguém, repito (seria bobagem). É só chamar a atenção para o fato de que existem coisas que a paixão literária ignora – um caminho que tende ao egoísmo intelectual mesmo. Mas eu tenho consciência de que, colocadas as coisas dessa forma, existe uma enorme chance de que a coisa toda seja só interpretada como “papo de chato”. Porque violar o terreno do gosto é sempre tomado como uma coisa “impositiva”. :T

      Agradeço a contribuição!

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