Clássicos são Intocáveis? A discussão de Before Watchmen

Escrito por: | em 03/03/2012 | Adicionar Comentário |

Nas últimas semanas foi oficializada a notícia de que a DC Comics iria revisitar uma das histórias em quadrinho mais clássicas, Watchmen, escrita por Alan Moore e considerada por muitos a melhor obra de todos os tempos nessa mídia.

Publicado em 1986, Watchmen tornou-se um projeto revolucionário por transformar uma história de super-heróis em algo além. O que seria do mundo se os heróis fossem reais? Essa é a grande premissa da narrativa cínica e pungente que coloca esses super-seres como pessoas de carne e osso e terríveis defeitos, sem temer assuntos controversos como sexo, estupro e violência. Alan Moore fez talvez sua maior obra, em 12 edições, com começo meio e fim, utilizando-se de grandes reviravoltas, metalinguagens e referências.

Hoje, 25 anos depois, algum executivo da Warner (dona da DC), que provavelmente não lê HQs e só pensa em seu lucro mensal, ordenou que a obra clássica fosse mexida, tendo em vista que ainda é uma das obras mais vendidas do ramo. Chamaram roteiristas e ilustradores de peso para contar o que se passou antes dos eventos de Watchmen, denominando o projeto de Before Watchmen (Títulos: Rorschach, Minutemen, Comediante, Dr. Manhattan, Coruja, Ozymandias, Espectral).

Por todo o globo fãs xiitas começaram a rasgar suas vestes e puxar seus cabelos em sinal de protesto pela notícia. Primeiro, por tocar no que eles consideram como quase um filho, e segundo, por não ter a aprovação de seu criador Alan Moore. Embora eu ache que mesmo que fosse o próprio a escrever ainda assim veríamos protestos, não se esqueçam que houve um Matrix 2 e 3 feito pelos mesmos caras do primeiro.

Do alto de sua montanha e barba quilometral, Moore usou seu Thu’um e gritou: Isso só confirma que eles ainda são dependentes das ideias que eu tive há 25 anos. Mesma frase usada quando utilizaram um conceito seu para desenvolver uma saga do Lanterna Verde.

Minha opinião: Quero mais de Watchmen? Sim. Pode sair algo de bom desses títulos? Sim. Vou ler as histórias? Sim. Alan Moore tem um ego muito grande? Sim. Então por que não?

Nunca desgostei de Alan Moore, mas assim que ele utilizou essa frase passei a repensar minha opinião. Peraí, esse não é o cara que há anos escreve o Liga Extraordinária utilizando personagens famosos da literatura criados por OUTROS autores? E se Julio Verne levantasse do túmulo e dissesse: “Ainda estão dependentes de idéias que tive há mais de 100 anos!” ? Hipocrisia pura Sr. Moore. Posso pegar Watchmen então? Não seria Rorschach uma versão do Questão, Dr. Manhattan uma do Capitão Átomo, Coruja do Besouro Azul e assim por diante? Então você pode reaproveitar as idéias alheias, mas não os outros?

Quando perguntado sobre isso o autor deu uma resposta mequetrefe dizendo que os meios são diferentes, que ele bota os personagens em outro contexto, etc… balela né?

Acho que revisitações a obras clássicas são saudáveis sim, ainda mais por trazer de volta o interesse à obra original. Mauricio de Souza concordou com Turma da Mônica Jovem e mesmo que tenham falado muito mal está sendo um sucesso editorial, não só isso, conseguiu autorização para um crossover com as obras de Ozamu Tezuka, considerado o pai do mangá moderno, o que seria o único crossover do autor já autorizado na história. Ainda sobre a turma da Mônica, foram feitas reimaginações do universo por 50 artistas na obra fantástica MSP 50, e mais tarde o MSP por +50, e o MSP novos 50.

Outro gigante do ramo, Will Eisner, criador das graphic novels, deu carta branca para que nos anos 90 vários autores homenageassem o clássico Spirit em novas histórias tendo nomes como Neil Gaiman, Dave Gibbons, e… vejam só, olha ele aqui de novo: Alan Moore.

Eisner desenhando a Turma da Mônica

Deixando um pouco a banda desenhada de lado e entrando na literatura, temos os recentes Orgulho e Preconceito e Zumbis; Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros; Razão e Sensibilidade e Monstros Marinhos, além de outros. Com certeza não são obras excepcionais, mas não vejo nada errado em publicá-las ou lê-las, até por que, como disse, despertam um novo interesse nas obras originais, principalmente em novos leitores.

E você, o que acha disso tudo?



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Renan MacSan

Estudante de Medicina, leitor de longa data, jogador de games e amante de HQs. Tem como livro favorito O Nome da Rosa e sonha em terminar de escrever o seu. Leitura atual: Dança dos Dragões ; e Londres - O Romance.